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sábado, 12 de janeiro de 2013

UMA VIAGEM PELA MENTE DE PAULO



Acho que já deu para todo mundo notar que eu não concordo com Friedrich Nietzsche quando acusa Paulo de ser o fundador do “Cristianismo”. A Basílica é de São Pedro, não de São Paulo! 

Paulo perdeu a “parada” na construção do “Cristianismo” simplesmente porque o que Paulo discerniu, creu, ensinou e praticou, jamais criaria um “Cristianismo”, mas tão somente igrejas que se amavam, se correspondiam, se comunicavam, e se sentiam parte do Corpo Universal de Cristo. 

Essas igrejas não deixavam de ser o que eram e nem as pessoas quem eram nas circunstancias de suas vidas e culturas, visto que não haveria nunca nenhum poder humano, central ou regional, que fizesse ninguém dominar sobre ninguém, ditando ensinos de homens e revelações do ego, pois, Cristo é o Cabeça do corpo e Nele temos o Amém de Deus—conforme Paulo!
Além disso, não haveria uma profissão teológica a ser buscada e nem um status profético de detentor de novas revelações a ser alcançado, pois, em Cristo, todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento já haviam sido revelados. 

O apostolo também cria que o mistério desse crer e saber geraria um sentir de almas unidas no amor de Cristo. E, assim, o mundo veria a presença do reino de Deus.
Ele também cria que esse testemunho tinha que ser dado dentro do contexto onde a Palavra estava sendo anunciada. Assim, para os judeus ele era escândalo entre os gentios!
Para os gentios ele não era um escândalo entre os judeus, quando raspou a cabeça, tomando voto. Afinal, quando alguém faz parte de uma cultura onde a revelação se originou, pode passar a pensar que sua cultura e sua história são santos também. E os que souberam depois—os gentios, no caso—sentem-se privilegiados em poder ter algum contato com a “cultura original”, como o fazem os católicos e evangélicos quando beijam o chão de Israel! 

Hoje a exemplificação também vem dos novos convertidos evengélicos que recebem a Jesus e tem que "engolir" o pacote como se tudo fosse o evangelho, até o jeito de falar ou vestir!
O engando é pensar que quem chegou antes já discerniu mais. Paulo nuca creu nisso. Por isso mesmo botou Pedro sob a Graça e enfrentou tudo e todos pela verdade do Evangelho.
Nisto ele também se gloriava.
Dois mil anos depois... 

Já para nós, em certas coisas, temas e circunstancias da vida, Paulo parece um pouco de menos para os liberais e um pouco demais para os conservadores—e nada para os neopentecostais!
Para nós Paulo é tão demais ainda que o “demais” de Paulo, pouca gente tem enxergado.
E Paulo apesar de saber que era demais, era para si mesmo tão de menos, que nunca pensou que sua pessoa fosse ficar nada além do que nele se via e dele se ouvia!
Mas a mediocridade se aferra às circunstancialidades do “aplicativo” do Princípio da Palavra em Paulo e não cresce no Principio da Palavra a fim de fazer seu “aplicativo” no momento histórico em que se está vivendo.
Assim, o Universal em Paulo se reduz a slogans e o “aplicativo circunstancial” se transforma é “principio universal”.

Alguns exemplos.

Primeiro os slogans que sobraram:

Pela Graça sois salvos!—para os Reformados.

Não me envergonho do Evangelho!—para os Missionários.

Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim!—para os Santificados.

Dou Graças a Deus porque falo em línguas mais do que todos vós!—para os Carismáticos.

Tudo é vosso!—para os liberais.

Todas as coisas são puras para os puros!—para quem gosta daquilo que a maioria diz não poder ou gostar.

Não é bom para o homem o comer com escândalo!—para quem anda doido para fazer alguma coisa e tenta se controlar.

O bispo seja marido de uma só mulher!—para aquele que tem um medo horrível de gostar tanto de pregar quanto gosta de mulher.

O bispo governe bem a sua própria casa!—para o líder que acha que consegue manter os filhos escondendo bem seus próprios corações.

Há muitos outros slogans!

Outro dia eu volto a eles.

Agora os aplicativos.

Ora, os aplicativos são tantos que eu vou deixar a expansão deles para outra hora. Aqui vou apenas dar alguns poucos exemplos.
Vejamos:

O bispo seja marido de uma só mulher!—porque no principio Deus criou Adão e Eva, não Adão e suas mulheres. No entanto, Adão caiu e o mundo de Paulo não era o jardim do Éden.

Portanto, a fim de que o Evangelho fosse boa notícia para todos—incluindo os que tinham mais de uma esposa ou mulher quando conheceram a Palavra—, Paulo recomenda que o bispo seja o referencial desse novo modelo.
Afinal, não há homem nem mulher (Gl 3:28).
E o homem que não quiser sua mulher pensando como ele, que pense como ela.
E assim, haverá igualdade.
Mas o mundo é caído!
Cada geração tem que entender e saber recomeçar sem negociar com o Princípio da Palavra.
O aplicativo carrega o Princípio, mas não pode ser instituído como forma.

Mais algumas acusações feitas ao irmão Paulo.

Ele é acusado de ter inventado o “bispo” (que era bispo de casas de fraternidade, o outro nome é igreja, e não essa figura estereotipada de hoje), a “hierarquia” (que era orgânica e não funcional), o “silencio das mulheres” (que era cultural), o tom agressivo (que era o mínimo que ele poderia fazer considerando a dor das circunstancias), a lógica na argumentação (porque ele era inteligentíssimo), a independência excessiva (porque ele cria, não duvidava e não tinha medo), etc...

Para mim, sinceramente, ele é o homem que discerniu e explicou a razão da esperança melhor que ninguém. Isso ninguém pode negar!

Mas se Paulo tivesse sido entendido nos Princípios Essenciais da revelação que transmitia, a história teria sido possivelmente outra, em razão de que a essência do que Paulo ensinou não criaria o que o “Cristianismo” se tornou, em qualquer de suas variáveis.

Perfeito nunca seria—somos caídos e Paulo se considerava o principal entre os pecadores—, mas seria muito mais revolucionário!

E não haveria uma Basílica que representasse o Templo de Jerusalém sendo erguida em nome da fé em Jesus!
Mas também não haveria o Protestantismo.

Paulo não era um protestante, ele era um inconformista.

Ele jamais proporia uma Reforma. Ele cria em subversão, em revolução permanente, em nunca se conformar com este século e suas produções, ainda que teológicas.

A fé de Paulo estaria em permanente estado de crescimento: tanto no conhecimento de Deus, como em auto-percepção e em discernimento da natureza humana--e também da natureza!
O que a gente não entende quando lê a Palavra em Paulo é que ali há a revelação eterna, e que ela está sendo enviada ignorantemente —como convém à piedade—na forma de cartas para pessoas que se reuniam em casas, e que tinham nomes semelhantes a Fernando, Mara, Suzana, Antônio e Suzane, Maria Helena, Alfredo, Sergio e Débora, Raimundo e Murilo.
Ou seja:

Paulo sabia que o que dizia era a Verdade do Evangelho de Cristo. Ele não tem nenhuma dúvida a respeito da revelação recebida.
Quando ditava algo ou escrevia para enviar aos Efésios, Romanos, Filipenses, Coríntios ou qualquer outra cidade, poderia também ser Rio de Janeiro, São Pedro, Curitiba, Teresina e Sobral do Ceará.
Ele era responsável eternamente pelo que ensinava acerca do Evangelho e, ao mesmo tempo, completamente solidário e participe do momento e das circunstancias das vidas de seus ouvintes.
Ele sabia que o que dizia era o Evangelho e que o Evangelho não era nada mais nem menos que aquilo.
Ele só não sabia era que sua “correspondência” iria ser lida durante dois mil anos, todos os dias—especialmente aos domingos—, por milhões, bilhões de seres humanos, e que essas pessoas iriam pensar que todas as soluções imediatas que ele, Paulo, buscava alcançar no “aplicativo” do Principio Universal do Evangelho, iriam se transformar em “conteúdo fixo” do evangelho, e que viria a ser ensinado como “mandamento para todas as culturas dos gentios da terra”.
Logo ele? que lutou contra isso o tempo todo? tendo feito mais inimizades por causa disso do que por qualquer outra razão entre os judeus ou entre os cristãos judaizantes!?

Não!

Paulo jamais gostaria que o carioca fosse como os gregos e pernambucanos como os holandeses, e os paulistas como italianos!
Paulo estabeleceu os Pontos Ômega e fez aplicação circunstancializada dos Princípios, conforme o aplicativo pertinente ao contexto.
Aquelas coisas eram importantes naquela hora, mas não dava para comparar com Bem do Evangelho.
E, à semelhança dele, Paulo cria que cada geração iria ter que reconhecer também, como ele mesmo pediu a Timóteo que o fizesse—em suas ações, atitudes, amor, longanimidade, fé, pureza, saber, e também pelas armas da justiça, quer ofensivas, quer defensivas; por boa fama e por desonra; como quem morre, mas eis que vivo está!—, o significado de crer no Evangelho de Jesus!

“Em Cristo não há homem, nem mulher; nem escravo, nem liberto; nem judeu, nem grego”—foi o que ele disse.

Isto é Universal.

É! em Cristo!

Voltamos dois mil anos...
Havia um monte de gente vivendo em Corinto.
A cidade era portuária e o verbo corintianizar era sinônimo de tudo o que os cariocas são no imaginário universal: o povo da boa vida, do prazer e do momento de alegria.
Em Corinto as prostitutas cultuais desciam da Acrocorinto com o rosto nu e as roupas apenas em suficiência para aumentar a sedução.
Uma mulher que tivesse marido e fosse fiel a ele deveria se diferenciar desse paradigma com “autoridade”—e a expressão simbólica da mulher que não gosta que fiquem gritando nas costas “sua gostosa!”, naquela época, era botar o véu sobre a face.
Se no Brasil esse sinal fosse respeitado, muitas mulheres usariam véu, se a percepção cultural das pessoas fosse idêntica.
Naquele tempo o véu era o sinal vermelho para qualquer pretensão.
Hoje se puser o véu a “rapaziada” arranca e se não ouvir um sonoro “me deixa em paz”, nem sempre desiste.
O problema é que em Corinto se o que funcionasse fosse o “me deixa em paz”, Paulo iria dizer:
“Irmãs, diferenciem-se, numa circunstancia dessa, dizendo “me deixe em paz”.
Mas era o véu que respeitavam.
E respeitavam-no porque aquela mulher tinha “dono”.
Era a percepção “para fora”.
Para o lado de “dentro” Paulo diz que o “dono” daquela mulher não deveria fazê-la sua propriedade a fim de
abusar dela.
Afinal, a mulher saiu do homem, mas o homem nasce de mulher.
E assim como o homem é a gloria de Deus, assim também a mulher é a gloria do homem!
E olhe que para Paulo a palavra gloria significava gloria!
(Falaremos disso noutra ocasião).

Resumindo:

Coisas do dia a dia se transformaram em lei de conduta entre os cristãos.
E nas cartas inspiradas enviadas aos amigos e irmãos da comunidade, até os nomes das pessoas mencionadas são vistos como especialmente eleitos como santos e parte da revelação.
Essas pequeninas coisas é que obscurecem as Universais!
Sabe o que é isso?
É nunca ter entendido a Palavra.
Paulo mesmo disse que a letra mata--até mesmo nas cartas de Paulo!
Quem já conheceu o irmão Paulo não fica mais com esse problema.
Sabe que Paulo era absolutamente certo de ter crido e processado a Palavra da Verdade da Graça de Deus revelada em Seu Filho Jesus Cristo.
Sabe que tudo isso é decisão de Deus.
É mistério.
Cristo é a Revelação.
O Evangelho é a Boa Noticia, mas não se encerra numa única explicação cultural. Não se deixa prender nem por judeus, nem por gregos, nem por americanos, ingleses, brasileiros ou até mesmo argentinos (o “até mesmo” revela meu mergulho no momento histórico emocional brasileiro de fazer piadas com argentinos).

Certo?

O que fazer então?

Bem, vou parar por aqui.
Estou meio cansado.

Já escrevi demais por hoje.
Amanhã eu continuo.

Caio

www.caiofabio.net
www.vemevetv.com.br

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Um Deus à altura dos desafios da realidade (Isaías 40-55)

Júlio Paulo Tavares Zabatiero

Introdução

A destruição de Jerusalém e do Templo no monte Sião, bem como o fim do
reinado davídico e as deportações para a Babilônia, configuraram uma situação
nova para o povo de Judá, especialmente para os seus dirigentes e para todo o
pessoal mais diretamente ligado à corte davídica, tais como sacerdotes,
comerciantes, lideranças militares, “anciãos” grandes proprietários de terras, bem
como as mulheres e crianças em suas famílias. Nessa nova situação, a identidade
do povo judaíta1 foi abalada fortemente, especialmente em seus elementos
teológicos – tais como a crença na inviolabilidade de Sião, a fé no poder de Javé
em manter a dinastia davídica no trono, bem como a independência de Judá. Os
conteúdos teológicos e os aspectos existenciais da fé em Javé já não mais davam
conta dos desafios da situação, não contribuindo mais para a manutenção e
desenvolvimento da identidade do povo de Deus. Várias foram as respostas à
necessidade de reconfiguração da identidade, dentre elas, a que encontramos nos
capítulos 40-55 do livro de Isaías, que são reconhecidos predominantemente como obra de um (ou mais) autor(es) desconhecido, no período final da dominação babilônica, ou nos primeiros anos da dominação persa.

1 Que adjetivo pátrio aplicar ao “povo de Javé” é, por si só, um problema historiográfico. Judá não era o nome
nacional pelo qual os judaítas se reconheciam, mesmo após a “divisão do reino” (I Rs 12ss) – no próprio
Dêutero-Isaías se usam o nome Israel e o termo tradicional Jacó ou “casa de Jacó”. Judá se torna o nome da
região no período persa, pelo que se nomear seus habitantes como “judaítas”. O termo “judeu” é preferível para
designar os membros do “povo de Javé” após a reconstrução de Jerusalém no período de Esdras-Neemias. Neste
artigo, utilizo predominantemente o termo “judaíta”, no sentido mais neutro de habitantes da região conhecida,
posteriormente, como Judá. Conseqüentemente, “israelita” será o termo usado preferencialmente para os
habitantes do antigo “reino de Israel”. No caso das tradições teológicas, prefiro então usar o termo composto
judaico-israelita.

Faculdade Unida Teologia do Antigo Testamento 2

A principal novidade teológica de Isaías 40-55, com forte impacto para a
reconstrução da identidade judaíta, é a sua redescrição de Javé, o deus dos judaítas e israelitas. Com seu estilo mais emotivo, von Rad expressou opinião semelhante, ao se pronunciar sobre a mensagem do profeta:
Javé ainda não havia falado deste modo pela boca de um profeta.
Jamais também se inclinou tão profundamente, em suas palavras,
para se aproximar de seu povo, jamais se despojou de tudo o que o
fazia temível, para não amedrontar nenhum daqueles que haviam
perdido a coragem. [...] O segundo-Isaías encontrou fórmulas que
revelam o coração de Deus duma maneira que causa espanto.2
O novo contexto, da dominação babilônia, demandou uma resposta
teológica à altura dos novos desafios colocados sobre a fé em Javé. A destruição
dos reinos de Israel e Judá, as mudanças populacionais e deportações, a derrubada da dinastia davídica, a destruição do Templo, a vida em novos ambientes – tudo isto precisava ser interpretado e colocado em perspectiva teológica. E nesse esforço de interpretação, a descrição de deus não podia deixar de ocupar lugar preponderante – na medida em que as bases da fé em Javé, conforme estabelecidas na teologia davidida e sionista, foram abaladas por todos esses acontecimentos.
Devemos estudar a redescrição3 de Javé em Isaías 40-55 como um
extraordinário esforço intelectual e existencial para dar conta desses desafios.
Esforço que, por um lado, deveria reinterpretar e reconfigurar as crenças
tradicionais em Javé; e, por outro, criar novos modos de falar de Javé em resposta à teologia dos babilônios. Dar novo sentido à situação de exilados e derrotados era

2 Von RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. vol. II. São Paulo: ASTE, 1974, p. 240.
3 Uso o termo “redescrição” em sentido apropriado de Richard Rorty que, com o termo, destaca o papel da
filosofia como um pensamento não fundacional-metafísico. A redescrição está ligada à adoção de novo
vocabulário que permite o auto-crescimento e a adoção de um diferente conjunto de valores. Exemplos de
adoção de novo vocabulário, em Isaías 40-55, são a preferência pelo verbo ga'al ao invés de yatsa' e natsal para
se referir ao êxodo; o uso constante dos pares Israel/Jacó e Jerusalém/Sião; o uso dos verbos criar e formar para
se referir à libertação de Israel. Nessa linha de pensamento, tanto a filosofia como a teologia deveriam ser vistas
como buscas de justiça e não de verdade: “Se pararmos de pensar na verdade como o nome da coisa que dá
significado à vida humana, e pararmos de concordar com Platão em que a busca da verdade é a atividade humana
central, então poderemos substituir a busca da verdade pela esperança messiânica de justiça.” RORTY, Richard.
“Para emancipar a nossa cultura (Por um secularismo romântico)”. In: DE SOUZA, José C. (org.) Filosofia,
racionalidade, democracia. Os debates Rorty & Habermas. São Paulo: Unesp, 2005, p.88.

Faculdade Unida Teologia do Antigo Testamento 3

o grande desafio teológico a ser enfrentado. Uma nova descrição de Javé foi o
passo principal nesse processo de reconstrução da identidade judaíta sob a
dominação babilônica.

1. A redescrição de Javé vis-a-vis o discurso babilônico sobre seus deuses

4
“Parece que a mensagem central de Isaías 40-55 pode ser construída como uma
espécie de imagem-de-espelho da ideologia expressa na liturgia akitu e no mito
Enuma Elish. O fato de que as únicas divindades estrangeiras nomeadas nestes
capítulos sejam Bel e Nebo – isto é, Marduque e seu filho Nabu (46,1-2), os
protagonistas divinos no festival akitu – apóia esta leitura do texto.”5

Não farei uma análise detalhada das relações intertextuais e
interdiscursivas que ligam Isaías 40-55 e textos mesopotâmicos do período.
Apresentarei apenas alguns exemplos que devem servir para nortear a descrição,
posterior, das características da crença em Javé no segundo Isaías.
Já no prólogo do Segundo Isaías (40,1-11), a polêmica contra a teologia
babilônia, especialmente contra Marduque6, se faz evidente. Isaías 40,1-2 apresenta Javé misericordioso, colocando fim aos “trabalhos forçados” do seu povo, justa punição sobre os seus pecados – com linguagem que lembra a seguinte passagem sobre Marduque, no tablete VII do Enuma Elish: “Ele é Agaku, o amor e a ira; com palavras vivazes ele apressa a morte, ele teve pena dos deuses caídos, ele diminuiu os labores que caíam sobre os adversários.” Isaías 40,3-5 redescreve a procissão triunfal dos deuses para/na cidade da Babilônia, como a procissão triunfal dos judaítas exilados retornando à sua terra – imediatamente seguida de uma declaração da fragilidade dos poderes humanos (40,6-8; cp. 47,1-15 que descreve a

4 Ao final do texto, anexei uma tradução da Tábua IV do Enuma Elish.
5 BLENKINSOPP, J. Isaiah 40-55: a new translation with introduction and commentary. New York:
Doubleday, 2002, p.107.
6 Veja o artigo de T. Abusch “Marduk” em TOORN, K. E outros (eds.) Dictionary of deities and demons in the
Bible. Leiden: Brill, 1999, p. 543-549. Para uma descrição genérica da religião mesopotâmica e sua relação com
a política, v. CARDOSO, Ciro F. S. Antiguidade Oriental: Política e Religião. São Paulo: Contexto, 1990,
especialmente p. 9-50); e GARELLI, Paul & NIKIPROWETZKY, V. O oriente próximo asiático. Impérios
mesopotâmicos-Israel. São Paulo: Pioneira/EDUSP, 1982.

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queda da Babilônia)7. À saída dos judaítas do exílio (que corresponde
inversamente à entrada dos deuses na Babilônia), corresponde a procissão de Javé para voltar a reinar em Jerusalém/Sião, brevemente descrita em 40,9-11. O
evangelho às cidades de Judá, declarando que Javé é rei, contradiz diretamente a
aclamação de Marduque como rei.8 Em 51,9-11, a descrição da procissão feliz dos exilados de volta a Sião é precedida pela descrição da vitória de Javé no êxodo, estilizada à luz da cosmogonia babilônica da luta entre deuses. A historicização do combate criador mediante sua inserção na tradição do êxodo é mais um exemplo da vitória de Javé sobre Marduque. Pouco depois, em 52,7-10, reafirma-se a realeza de Javé (em contraste com a declaração da realeza de Marduque no Enuma Elish IV,28), que está na base da saída dos exilados, exortados a não permanecerem na Babilônia (52,11-12). Em contraste com esta feliz saída, há uma breve descrição da saída de Bel e Nebo da Babilônia, derrotados por Javé, deus incomparável (46,1-7, cf. 40,18.25; 43,11; 44,6-8; 45,5-6.14.18.21-22; 46,9; textos que estão em relação polêmica com as afirmações sobre a grandeza incomparável de Marduque no Enuma Elish, e.g., VII, 14.889). A afirmação de Javé como criador do mundo e salvador de Israel (cf. 40,12.26.28; 42,5; 43,1.15; 44,24; 45,7-8.12.18; 48,12-13; 51,13.16) também pode ser vista nos termos da polêmica contra a cosmogonia babilônica, que retrata a criação do mundo como fruto de uma guerra entre deuses, vencida por Marduque ao matar Tiamate (a deusa “mar”), e que cria o mundo para que a humanidade

7 Nosso conhecimento do ritual do Akitu, a Festa do Ano Novo, é relativamente fragmentário. Para uma primeira
aproximação ao tema, v. o artigo de Tikva Frymer-Kensky, “Akitu”, em ELIADE, M. (ed.) The Encyclopedia of
Religion. Nova Iorque: Macmillan, 1987, vol. I, p. 170-172.
8 No tablete IV: “Ele falou e a aparição desapareceu. Novamente ele falou, e a aparição reapareceu. Quando os
deuses deram-se satisfeitos por Marduk ter provado a força de sua palavra, os deuses ancestrais abençoaram-no e
bradaram: MARDUK É REI!”
9 “Como ele, não tem igual na assembléia”; “Ele é ARANUNNA, o conselheiro, com seu pai EA sem igual em
seus modos soberanos, ele criou os deuses.”

Faculdade Unida Teologia do Antigo Testamento 5

passe a servir aos deuses10. Neste contexto polêmico, a descrição do von Rad
possui bem mais sentido:
... para ele, a criação é o primeiro dos milagres históricos de Javé,
testemunha a seu modo a vontade de salvação de Javé. ... O
segundo-Isaías nos fornece uma prova impressionante desta
concepção 'soteriológica' da criação: fala da mesma forma de Javé,
Criador do mundo, como de Javé, Criador de Israel. Javé é o
Criador de Israel no sentido de que chamou este povo à existência
enquanto criatura, e sobretudo porque o 'escolheu' e o 'resgatou'. [...]
Quando, num hino, atribui a Javé os predicados de Criador e de
Redentor de Israel, não faz alusão a duas atividades distintas, mas a
uma só: o acontecimento salutar que permitiu a Israel sair do Egito
(Is 44,24; 54,5).11
O sentido salvífico da criação (e sua respectiva historicização) não precisa ser
entendido a partir de uma concepção teológica moderna, como, e.g., a “história da salvação”12; pode ser percebido contextualmente na polêmica contra o sentido
“escravizador” da criação do mundo e dos seres humanos por Marduque e demais deuses babilônios. Pode-se incluir aqui, também, a afirmação de que Javé não precisa de conselheiros (40,13-14; 41,28), que contrasta com a afirmação de que Marduque é conselheiro dos deuses: “Ele é Kinma, conselheiro e líder, seu nome traz terror aos deuses, o rugido do tornado” (Tábua VII).
Neste campo semântico também devemos incluir as afirmações sobre Javé
como “deus eterno” (40,28), “deus de toda a terra” (54,5), “soberano Senhor”
(51,22), que atribuem a Javé características também atribuídas a Marduque, por
exemplo: “Um deus é maior do que todos os outros deuses, de fama mais justa,
cuja palavra de comando, é a palavra dos céus, oh Marduk, o maior de todos os
grandes deuses, honra e fama, vontade de Anu, grande no comando, palavra eterna

10 “Ele criou o homem (e a mulher) seres vivos, para trabalhar para sempre, e liberar os deuses de outras cargas”
(Tábua VI)
11 von RAD, G. op.cit., p. 231s.
12 Veja-se a discussão sobre a relação entre criação e salvação por HAAG, E. “Deus criador e Deus salvador na
profecia de Dêutero-Isaías”. In: GERSTEBNERGER, E. (org.) Deus no Antigo Testamento. São Paulo: ASTE,
1981, p. 259-290.

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e inalterada!” (Tábua IV). Em Isaías 40-55, a antiga e tradicional noção do deus
supremo que rege os demais deuses no conselho celestial é modificada pelas
afirmações de que somente Javé é Deus (45,5.6.18b.22; 46,9), e que ele é anterior à criação, o “primeiro e último” (43,10b; 41,4; 44,6; 48,12). Desta forma, a
redescrição “monoteísta” deve ser entendida como a resposta teológica dos judaítas à dominação imperial babilônica, legitimada pela soberania universal de Marduque sobre os deuses e, conseqüentemente, sobre toda a terra. Que Javé é o único e supremo Deus também se postula através da afirmação de que ele controla os astros celestes (40,26; 45,12), por ele mesmo criados, em clara polêmica contra a divinização dos astros celestes na teologia babilônica (e.g., Marduque é o Sol, Sin é a Lua), bem como contra a astrologia desenvolvida pelos “magos caldeus” – só de Javé é que se deve buscar conselho e direção para a vida. Por fim, deve-se notar também a relação polêmica da afirmação da unção
de Ciro (44,28-45,8)13 por Javé, que o subordinou na salvação de Israel e no
governo das nações, com a afirmação, no Cilindro de Ciro, de que foi pela mão de Marduque que o persa conquistou (isto é, “salvou”) a Babilônia: “Ele perscrutou e examinou todas as nações, buscando um rei justo que quisesse levá-lo (na procissão anual). Então, ele pronunciou o nome de Ciro, rei de Anshan” (cf. Pritchard, James, Ancient Near Eastern Texts, p. 315). Em um cilindro, ligado a Nabonido, Marduque apareceu em sonho ao rei babilônio, e o advertiu acerca da vitória de Ciro sobre os medas: “O meda, a quem mencionaste, ele, seu povo e os reis que marcham com ele, deixarão de existir. (E, de fato) quando o terceiro ano
chegou, ele (Marduque) levantou Ciro, rei de Anshan, seu jovem servo, que

13 “Javé virá proximamente; mas ele não se revelará somente a Israel, virá desta vez para uma teofania universal;
sua glória (kâbôd) será revelada a todas as nações. ... Depois que Ciro movimentou a história universal, muitas
coisas começam a vacilar e o fim está próximo. 'Minha salvação está próxima, meu socorro já vem (Is 51,6;
46,13). O braço de Javé está desnudado diante das nações (Is 52,10); coisas maravilhosas se produzirão. ... é Javé
quem o [Ciro] 'suscitou' (Is 24,2.25) [sic], e se dirige a ele usando o estilo de corte do Antigo Oriente, dizendo
que o tomou pela mão, que o acompanha como um amigo, que o chamou por seu nome e lhe deu afeição [nota
335, p. 447: Is 45,1-3; 48,14. Já se notou freqüentemente o paralelismo chocante que esta passagem e as
expressões estilizadas em linguagem da corte que descrevem a relação do Deus Marduque com Ciro no
documento chamado 'cilindro de Ciro', AOT, p. 368ss; ANET, p. 315s.].” (von RAD, 1974:234)

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dispersou os exércitos do meda com o seu pequeno exército, e que capturou
Astíages, rei dos medas, e o levou como cativo”.14 Isto nos permite contrastar a
profecia com a “adivinhação”, conforme presente na polêmica teológica de Is 40-
55, e.g. em Is 41,21ss (cf. 42,8-9; 48,2-6) que contrasta a capacidade preditiva de
Javé com a incapacidade dos ídolos (outros “deuses) em anunciar, de antemão a
seus povos, o que acontecerá no seu futuro. Temática, esta, que tem a ver com a
soberania universal de Javé, em contraste com a soberania de Marduque.15
2. A redescrição de Javé vis-a-vis a tradição teológica judaico-israelita
Já von Rad destacava a relação da teologia de Is 40-55 com a tradição
profética anterior: “constatamos que o segundo-Isaías retomou as três tradições
sobre a eleição que estão na base de toda profecia (as tradições relativas ao êxodo, a Davi e a Sião), e lhes imprimiu sua marca em poemas de grande valor” (Von RAD, 1974, p. 230). Não se aceita mais a afirmação de que as tradições do êxodo, Davi e Sião sejam “tradições sobre a eleição”, nem que “estão na base de toda profecia”. Von Rad ainda menciona o uso da tradição sobre a criação (p. 231) pelo segundo-Isaías, mas destaca que essa tradição não estava presente na profecia a ele anterior. Também aqui se deve modificar o foco, não se reduzindo a relação do segundo Isaías apenas com as tradições “proféticas”. Claus Westermann, em seu comentário a Isaías 40-66, procura traçar a relação do dêutero Isaías com as tradições a partir de três categorias distintas: as tradições históricas (êxodo, Sião e Davi), as tradições proféticas (o juízo e a denúncia contra o culto sacrificial), e as

14 Citado em BLENKINSOPP, Joseph. Isaiah 40-55: a new translation with introduction and commentary. New
York: Doubleday, 2002, p. 207).
15 “O segundo-Isaías coloca efetivamente, com toda agudeza, a questão de saber quem dirige a história universal?
A resposta que dá é surpreendente: o Senhor da história é aquele que pode predizer o futuro. Ora, os deuses dos
pagãos não são capazes disso, são pois 'inexistentes'. No conflito entre Javé e os falsos deuses, a prova pela
predição é que constitui a differentia specifica. No mais, sobre o plano da história, onde se resolve este conflito,
Javé está à mercê de seu povo, dado que Israel é sua testemunha, por mais miserável que seja (Is 42,19 ... 43,9-
10).” (von RAD, 1974: 233)

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tradições achadas no saltério (forma dos oráculos de salvação, o louvor
declarativo, a realeza de Javé, os salmos de lamento) – que é uma organização
mais adequada do que a de von Rad, mas ainda incapaz de categorizar
corretamente o pensamento judaico-israelita, na medida em que desconsidera
(como o fizera von Rad anteriormente) os distintos lugares sociais dessas diversas tradições.16 Outros autores e autoras, ainda, têm destacado as inter-relações do pensamento de Isaías 40-55 com a pregação do Isaías do VIII século (relação já enfatizada pela editoração do livro) e com o pensamento deuteronomista.
Assim como na discussão sobre as relações intertextuais com textos
mesopotâmicos, apenas comentarei brevemente sobre a apropriação de duas
tradições jerosolimitanas em Isaías 40-55 com vistas à posterior descrição da fé em Javé no segundo Isaías.

(1) Reino de Javé vs. reino de Davi
Um dos temas diretamente vinculados à afirmação da realeza de Javé, nas
antigas tradições de Judá, é a relação entre a realeza divina e a dinastia davídica.
Textos como II Samuel 7,1ss e Salmos 2 e 72; a ênfase na figura de Davi como
“servo de Javé”; a esperança messiânica real (cf. Is 6-9); e as afirmações sobre a
filiação divina do rei (Sl 2), são exemplos dessa relação – que não tem nada de
inusitado nas teologias políticas do Antigo Oriente, pois era moeda corrente nas
mesmas – os reis são, na terra, representantes (ou filhos) do deus supremo, ou dos deuses. O rei terreno é quem governa na terra manifestando o governo divino – ou seja, é ele quem executa na terra a justiça divina (e.g. Salmo 72) – e é, por sua vez, protegido e legitimado pelo governo divino. A importância da dinastia davídica extrapola a teologia “oficial” da corte, e se manifesta também na forma de um tipo de messianismo davidita, cujo lugar social é a crítica profética e popular à dinastia davídica regente (e.g. Is 6-9).17

16 WESTERMANN, Claus. Isaiah 40-66: a commentary. Philadelphia: Westminster Press, 1986, p.21-27.
17 Ver, também, SCHWANTES, M. “Elementos de um projeto econômico e político do messianismo de Judá.

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Em Isaías 40-55 porém, não é através de Davi e sua dinastia que Javé
realizará a justiça. Pelo menos três contrastes podem ser percebidos: (a) Javé
realizará sua justiça através de seu servo que, no Dêutero-Isaías é, ou um profeta
(42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 53,13-53,12), ou o próprio grupo de exilados identificadocomo Israel/Jacó (41,8.9; 42,19; 43,10; 44,1.2; 44,21.23; 45,4); (b) o Ungido de Javé e seu pastor libertador dos exilados é Ciro (44,24-45,8), um rei estrangeiro, e não Davi; e (c) as promessas a Davi (referência a II Sm 7,8-17) são transferidas a todo o povo de Javé (Is 55,3-5)18, o que corresponde também à ênfase sobre Jerusalém/Sião como o espaço da justiça divina ao invés da dinastia e do palácio real (e.g. Is 54,1-17).
Ao recusar-se a vincular o reinado de Javé à dinastia davídica, o segundo
Isaías o vincula às tradições do êxodo egípcio e das famílias abrâmicas préisraelitas (cf. 40,9-11; 52,7-12; 51,1-3 e a preferência pelo par Israel/Jacó para
significar o povo de Deus). Javé não é descrito, então, como o deus do estado
monárquico, mas redescrito como o Deus do povo, das famílias que O ouvem e
servem. Desta forma, a pregação dêutero-isaiânica retoma uma compreensão préestatal ou anti-estatal do reinado de Javé – reinado que não precisa, na terra, de um rei e seu aparato estatal-militar para se concretizar.19
(2) Jerusalém/Sião da justiça vs. Jerusalém/Sião do “sagrado”
De forma semelhante, o segundo Isaías redescreve a relação de Javé com
Sião. Nas tradições “sionistas”, Javé garante a inviolabilidade de Jerusalém/Sião,
que é o centro do cosmos e a morada eterna de Javé (e.g. Salmos 46, 48, 76 e 87).
Esta compreensão está estreitamente ligada à legitimação da dinastia davídica
brevemente comentada acima. Na oração de dedicação do Templo, atribuída a
Salomão, é afirmada a perenidade do Templo enquanto morada de Javé (I Rs 8,13),

Gênesis 49, 8-12: uma antiga voz judaíta interpretada no contexto da História da Ascensão de Davi ao Poder
(1Samuel 16 até 2Samuel 5)”. Revista de Interpretação Bíblica. Petrópolis: Vozes, 2004, vol. 48/1, p. 25-33.
18 Entre outros comentaristas, BLENKINSOPP destaca: “O autor isaiânico, portanto, por assim dizer, democratiza
a promessa a Davi, transferindo-a ao povo de Israel como um todo.” (op. cit., p. 370)
19 Ver, por exemplo, PIXLEY, Jorge. O Reino de Deus. São Paulo: Paulinas, 1986.

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crença reforçada na crítica ao profeta Jeremias que anunciava o juízo contra a casa e a cidade (Jr 7,4). A queda da cidade e a destruição do Templo representaram um desastre terrível para a fé judaíta:
Caiu, assim, um baluarte. Não casualidade, mas indício. Sinal da
presença de Deus. No entanto, um Deus que perdia a habitação que
escolhera para si, perdia também a força. Que significado tem esse
fato para a possibilidade de se falar desse Deus? Cito aqui trechos
de uma oração: 'que por tua ordem seja edificada a cidade divina ...
o templo seja acabado! Que por tua palavra, pois ela não muda,
possa ... completar-se a obra de minhas mãos! Que tudo o que criou
dure e subsista visivelmente até os tempos mais remotos'.20
Enquanto “a teologia de Sião” gira ao redor do eixo da sacralidade e da
liturgia sacrificial no Templo, a casa oficial da fé em Javé no estado monárquico,
no Segundo Isaías, a ênfase não passa por esse mesmo caminho da sacralidade,
mas pelo caminho da aplicação da justiça. Somente em dois versos encontramos a expressão “cidade santa” (48,2 e 52,1). No primeiro, a “cidade santa” é a fonte de legitimação da religião infiel dos seguidores de Javé responsabilizados pela
destruição da cidade e do reino de Judá. No segundo, a fala é exortativa e salvífica, convocando Jerusalém a se revestir das roupas gloriosas que Javé lhe dará em sua salvação – destaque-se que a cidade é descrita como “cativa”, implicitamente, como desnuda, ou seja, como pecadora e profanada pela invasão militar estrangeira21. Na sua redescrição de Jerusalém, as fontes textuais primárias são a crítica isaiânica (e.g. Is 1,21ss) e a de Jeremias e Sofonias (e.g. Jr 7,1ss; Sf 1,4-6; 3,1ss).
Na exaltada descrição da restauração de Jerusalém/Sião, no capítulo 54,
não se pode perder de vista que a cidade-esposa de Javé é retratada como em
ruínas, como tendo sido rejeitada pelo seu esposo por causa de seus pecados (note-

20 PERLITT, L. “Acusação e absolvição de Deus”. In: GERSTENBERGER, E. (ed.) Deus no Antigo Testamento.
São Paulo: ASTE, 1981, p. 295.
21 Não se deve perder de vista o caráter apologético destas afirmações. Um deus que não pode manter em pé a sua
cidade e sua casa, não pode ser senão um deus fraco e derrotado.

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se o elo entre a afirmação do repúdio da esposa com a menção a Noé, 54,6-8.9-
10)22. Especialmente digna de nota é a afirmação de que a nova Jerusalém terá
como característica a justiça, ou seja, a não-opressão (v. 14, que ecoa a crítica
profética contra Jerusalém), pois os seus habitantes serão “discípulos” de Javé, ou seja, não mais serão cegos e surdos à Torá de Javé, deficiência ética e espiritual que estava na base do juízo de Javé contra a sua cidade-esposa. Novamente, aqui, o elo entre Javé e o estado é rompido, e restabelecido o elo entre Javé e o seu povo.
A ênfase sobre Jerusalém/Sião (já indicada em 40,9-11 e espalhada pelo livro
dêutero-isaiânico) aponta para o caráter urbano do grupo que escreve o livro.
Como esposa de Javé, Jerusalém será metrópole (literalmente “cidade-mãe) de
Judá, ela será o lugar de onde Javé difundirá23 a sua justiça sobre a terra de seu
povo e sobre todas as nações.

3. Javé: deus único e incomparável: a redescrição dêutero-isaiânica
As seguintes frases afirmam que Javé é o único deus: “antes de mim
nenhum Deus foi formado e depois de mim não haverá nenhum” (43,10); “Eu, eu
sou Javé, e fora de mim não há nenhum salvador” (43,11); “Eu sou o primeiro e o último, fora de mim não há Deus” (44,6; cf. 41,4); “Eu sou Javé, e não há nenhum outro, fora de mim não há Deus” (45,5; cf. “fora de mim não há ninguém” 45,6); e “Quem proclamou isto desde os tempos antigos? Quem o anunciou desde há muito tempo? Não fui eu, Javé? Não há outro Deus fora de mim, Deus justo e salvador não existe, a não ser eu” (45,21) – frase colocada na boca das nações: “Só contigo Deus está! Fora dele não há nenhum Deus” (45,14). A expressão “fora (além) de mim” retoma o primeiro mandamento (Êx 20,1-6; Dt 5,6-9) e amplia seu

22 Note-se a conexão intertextual com Lm 1,1: “Como jaz solitária a cidade outrora populosa! Tornou-se como uma
viúva a que foi grande entre as nações.”
23 Lembremo-nos de que um dos verbos favoritos do Segundo Isaías, para se referir ao agir salvífico de Javé, é
“fazer sair”.

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significado ao excluir os “outros deuses”. A negação de divindade aos “outros
deuses” desempenha um papel crucial na reconstrução da identidade dos judaítas
exilados, através de sua forte tonalidade polêmica contra os deuses conquistadores dos babilônios (e dos assírios antes deles, e dos egípcios antes ainda)24. Não se deve interpretar estas afirmações a partir da categoria ocidental filosófica do monoteísmo.
Javé é o único Deus porque somente ele criou o mundo e salva o seu povo
Israel – é o agir de Deus que o caracteriza enquanto divino, não os atributos de sua natureza (como no teísmo filosófico). Como destacou Haroldo Reimer, a crença “monoteísta” em Javé precisa ser entendida no âmbito do processo histórico de formação e transformação da fé em Javé, especialmente mediante o mecanismo da sincretização: “todo esse processo deve ser entendido de acordo com as coordenadas de um sincretismo religioso, em que atribuições e funções de
determinadas divindades são transferidas a outra no mesmo compasso em que, na
base social, isto é, junto aos sujeitos religiosos, há um processo de amalgamação e inculturação das expressões religiosas.”25
A força principal da afirmação da unicidade de Javé recai sobre a crítica à
ideologia dos babilônios. Somente Javé é o deus criador, o vencedor e salvador, o
deus justo que anuncia o que fará antes de fazê-lo, o senhor da história. Para o
segundo Isaías, a descrição monolátrica de Javé não era mais suficiente para
manter a fé e a identidade do povo de Deus. Era necessário ir além, avançar para

24 “A prática de vincular uma auto-identificação da divindade com uma rejeição de reivindicações rivais - “não há
outro que possa salvar, além de mim ... ninguém pode livrar de minha mão” (ver também 44,6.8; 45,6.21) – se
assemelha à formulação atribuída à Babilônia personificada e, portanto, com toda a probabilidade, falada em
nome do deus imperial da cidade, Marduque: “Eu sou, e não há nenhum outro” (47,8.10). Entendo isto como um
dos indícios da familiaridade do autor com a ideologia religiosa do império e com o culto imperial, cujas
principais expressões são encontradas no épico Enuma Elish e no festival akitu de Ano Novo, durante o qual ele
era recitado. Diferentemente de Marduque, filho de Ea, que foi precedido pelos deuses criados em pares (Lahmu
e Lahamu; Ashar e Kishar), e sucedido por outros, Javé não tem uma genealogia e não é parte de uma teogonia
(v. 10b). Esta é uma das várias indicações, em Isaías 40-55, de um tipo de imagem especular do culto de
Marduque, por meio da qual o autor visava contrapor-se à ideologia do poder articulada nessas liturgias.”
BLENKINSOPP, Joseph. Isaiah 40-55: a new translation with introduction and commentary. New York:
Doubleday, 2002, p. 225.
25 REIMER, H. “Sobre os inícios do monoteísmo no Antigo Israel”. Fragmentos de Cultura. Goiânia: UCG, 2003,
vol. 13/5, p. 985.

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uma afirmação mais ousada e polêmica: somente Javé é Deus! Um passo
gigantesco dado por derrotados, sem nenhuma forma de verificação histórica – sem cidade, sem templo, sem palácio. Somente a fé e a esperança estão na base da afirmação monojavista. Em um ambiente cultural em que cada cidade possuía o seu deus, a afirmação de que há somente um deus possui implicações políticas e religiosas de largo alcance.
Crer em um só Deus demanda que todas as esperanças, dúvidas e certezas
sejam colocadas somente nele, e impede que se apele a outros deuses quando o
deus não atende as necessidades do crente. Afirmar que somente Javé é deus
dirige-se primariamente aos judaítas que dividiam a sua lealdade entre vários
deuses e deusas, de acordo com a conveniência. Crer em apenas um deus exige um tipo mais profundo de compromisso e lealdade. Ainda sob o ponto de vista da
religião, a afirmação do deus único impede todo e qualquer tipo de dualismo. A
afirmação ousada de que Javé cria a luz e as trevas, o bem e o mal (45,7), no
discurso sobre Ciro, polemiza com o dualismo explícito da religião persa,
ampliando dessa forma o alcance do monismo tradicional em Israel e Judá (cf. Am 3,6; 4,13). Isto acarreta, porém, uma incerteza para a crença. Um deus único é, também, um deus imprevisível, na medida em que não pode ser controlado pelos seus adoradores e adoradoras. Imprevisível, é também soberano e deve ser
atentamente ouvido e obedecido (a falta de ouvir e obedecer a Torá de Javé é a
principal descrição dêutero-isaiânica do pecado do povo de Javé). Acarreta esta
crença, ainda, a impossibilidade de se atribuir características fechadas de gênero à divindade. Javé não pode ser mais descrito como sendo exclusivamente
“masculino”! “O Deus único significa, entre outras coisas, que não é mais possível definir o gênero da divindade em termos exclusivos, ou fazer qualquer
diferenciação em termos de especificidade de gênero. Dêutero-Isaías pode se
aventurar a comparar o que Javé faz, com o grito do guerreiro na batalha (42,13) e

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com o grito da mulher em trabalho de parto (42,14).”26
Do ponto de vista político, a afirmação da unicidade de Javé representa o
fim de toda e qualquer noção estatal e/ou imperialista da divindade. O deus único
não está vinculado a nenhum país, a nenhum palácio, a nenhum templo, a nenhum lugar. Está em todos os cantos, de forma livre e soberana. Como criador e salvador de toda a terra e de todas as nações, Javé governa com justiça, libertadoramente, estabelecendo como padrão para as relações político-econômicas a fidelidade à justiça do próprio Deus. É à luz desta afirmação que a ação redentora de Javé em favor de Israel/Jacó e Jerusalém/Sião deve ser entendida, sob risco dela ser reduzida, novamente, a uma eleição arbitrária e excludente. Como criador dos céus e da terra, Javé também cria (salva) seu povo, mas não de forma excludente, pois seu povo se tornará testemunha (43,12; 44,8; 48,20-22) da salvação de Javé para todas as nações (cf. 49,10ss; 51,4-8; 52,1-6.7-12; além dos poemas do servo de Javé). Embora Jerusalém seja o lugar privilegiado da difusão da Torá justa de Javé, não é um lugar imperial. Embora a salvação das nações esteja vinculada à de Israel, não é para fazer de Israel um império. Se Javé não é como Marduque, também sua cidade não poderá ser como a Babilônia! Javé não é um deus nacional, mas um deus pessoal27. Deus de famílias e não de países. Deus de seguidores e seguidoras, e não de instituições. Não é à toa que o nome preferido do segundo Isaías para o povo de Deus é Israel/Jacó, o pai de família que viveu vinte anos no “exílio” e conseguiu, com sua família, voltar à terra de seu pai e mãe. Para os judaítas nas colônias em terras babilônicas, a memória das vicissitudes das famílias fundadoras, acrescida da fé em Javé como o único deus, desempenharia papel crucial na reconstrução de sua identidade ameaçada.

26 BALTZER, K. Deutero-Isaiah: a commentary on Isaiah 40-55. Minneapolis: Fortress Press, 1999, p. 36.
27 Não é possível, aqui, discutir as questões sociológicas e teológicas mais amplas relativas à afirmação de que Javé
é um deus “pessoal”, “familiar”. Veja-se a discussão, por exemplo, em ALBERTZ, R. História de la religión de
Israel en tiempos del Antiguo Testamento. Madri: Trotta, 1999, 2 vols. e GERSTENBERGER, E. Theologies in
the Old Testament. Minneapolis: Fortress, 2002.

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Como deus único, Javé também é um deus incomparável (40,12-31; cf.
46,5; 55,6-11). É incomparável em sua liberdade étnica, pois pode chamar Ciro,
um estrangeiro que não o conhece, para ser o sujeito histórico da libertação de seu povo (41,1-5.25; 44,28-45,7; 45,12-13; 46,11; 48,14s), e pode aceitar estrangeiros em seu povo (44,5). É incomparável em sua liberdade política, pois pode democratizar a aliança com o rei Davi (Is 55,1-5), sendo o Deus que faz aliança com as pessoas necessitadas, e não com as poderosas; e é o Deus que pune o seu próprio “país” (40,1-2; 42,18-25; 50,1-3), e pune também Babilônia porque não é justa (47,1ss). É incomparável porque a sua glória não está na pompa litúrgica ou arquitetônica, mas na libertação das pessoas injustiçadas (40,3-5; 43,16-21; 45,25; 46,13; 51,9-11; 55,12-13). É incomparável porque desqualifica a palavra dos sábios e a magia dos magos caldeus (44,25; 47,12-15), fazendo da sua própria palavra a força libertadora na história (55,6ss). É incomparável porque, para salvar o seu povo, não só usa um estrangeiro, mas também um servo que liberta não pela força militar, mas pela força do testemunho, até ao clímax do martírio (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12). É incomparável porque para criar o mundo, não precisou de conselheiros nem ajudantes, e nem se envolveu em um revolta caótica, mas vê o caos desdivinizado na opressão entre povos, e faz do novo êxodo do seu povo a triunfante passagem pelas águas caóticas (45,14-19; 51,9-11).
Diante dos imensos desafios da dominação babilônica, nenhuma resposta
tímida poderia servir de base para a reconstrução da identidade do povo de Javé.
Na pregação e nos cânticos do segundo-Isaías, encontramos a mais ousada
redescrição da fé em Javé no Antigo Testamento – que reverbera até hoje entre as
pessoas que seguem a Javé e também ao Pai de Jesus Cristo. Só há um Deus e ele é incomparável. Que Deus pode se comparar àquele que, para salvar a sua criação, morre reconciliadoramente? À mesma ousadia o segundo-Isaías nos convida hoje em nossas redescrições da fé.

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SCHWANTES, M. “Elementos de um projeto econômico e político do messianismo de Judá. Gênesis 49, 8-12: uma
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SCHWANTES, M. & MESTERS, C. Profetas: saudades e esperança. São Leopoldo: CEBI, 1990.
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WILSON, R. R. Profecia e Sociedade no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 1993.

Apêndice

Tábua IV do Enuma Elish
(http://www.angelfire.com/me/babiloniabrasil/enelish.html)
Foi feito um trono para Marduk, e ele ali se sentou, face a face com seus ancestrais para receber o
governo.
- Um deus é maior do que todos os outros deuses, de fama mais justa, cuja palavra de comando, é a
palavra dos céus, oh Marduk, o maior de todos os grandes deuses, honra e fama, vontade de Anu, grande
no comando, palavra eterna e inalterada!
Onde houver ação, Marduk é o primeiro a agir, Onde houver governo, Marduk é o primeiro a governar,
para dar glória a uns, para humilhar outros, a prerrogativa do deus, Verdade absoluta, vontade sem limite,
que deus ousará questioná-lo? Nos seus locais mais lindos destes mesmos deuses, um lugar é sempre
guardado para Marduk, nosso vingador.
Nós te chamamos aqui para receber o cetro, para fazer de ti rei de todo o universo. Quando te sentares no
Sínodo, serás o árbitro; na batalha, tuas armas esmagarão o inimigo.
- Deus, salva a vida de qualquer deus que se voltar para ti; mas para aqueles deuses que apreenderem o
mal, que a vida destes deuses lhes seja tirada.'
Os deuses ancestrais conjuraram então um tipo de aparição na frente deles, fazendo com que este ser
aparecesse frente a Marduk, para dizer ao jovem deus, o primogênito:
- Deus, tua palavra entre os deuses arbitra, destrói e cria; fale então e esta aparição irá desaparecer. Fale
novamente, e a aparição irá reaparecer.
Ele falou e a aparição desapareceu. Novamente ele falou, e a aparição reapareceu. Quando os deuses
deram-se satisfeitos por Marduk ter provado a força de sua palavra, os deuses ancestrais abençoaram-no e
bradaram:
- MARDUK É REI!
Os deuses ancestrais vestiram Marduk com as vestimentas reais, o cetro e o trono a ele foram dados, bem
como armas de guerra sem igual como um escudo contra adversários.
Parta agora. Tire a vida de Tiamat, e que os ventos carreguem seu sangue até os limites mais secretos do
mundo!
Os deuses antigos mostraram a Bel o que ele teria de ser e o que deveria fazer, sempre através da
conquista, sempre através de [grandes] vitórias;
Então Marduk fez uma reverência e para marcar aquela que seria sua arma, sua e somente sua, ele
colocou uma flecha contra o arco, na mão direita e segurou a clava e levantou-a para o alto, arco e flecha
pendurados ao ombro, sendo que relâmpagos se projetavam à sua frente, ele mesmo tornando-se numa
figura incandescente.
Ele fez uma rede, uma isca para Tiamat; os ventos, em suas posições nas quatro direções, seguraram tal
rede, o vento sul, o vento norte, o vento leste e o vento oeste, de forma que parte alguma de Tiamat
pudesse escapar.
Com a rede, o presente de Anu, ao lado, ele se ergueu.
IMHULLU
O vento atroz, a tempestade, o redemoinho, o furacão, o vento dos quatro, o vento dos sete, e o túmido, o
pior de todos.
Todos os sete ventos foram criados e liberados para assaltar as entranhas de Tiamat. Os ventos se
postaram atrás de Marduk. Então o tornado
ABUBA
Seu último grande aliado, o sinal para para o assalto, ele levantou.
Marduk montou na tempestade, sua carruagem terrível ...
Ele colocou à sua direita o Batedor, o melhor em fazer confusões; à sua esquerda esta a Fúria da Batalha,
que aniquila o mais bravo; adornou sua armadura com terror, uma auréola de espanto; com uma palavra
mágica murmurada entre dentes, uma planta que cura foi pressionada na palma de sua mão. Assim
armado, ele partiu.
Ele seguiu na direção do som crescente da ira de Tiamat, com todos os deuses a seu lado, e os pais de
todos os deuses. Desta forma, Marduk se aproximou de Tiamat.
Ele a observou examinar as profundezas, ele testou o plano de Kingu, o consorte de Tiamat, mas assim
que Kingu viu o jovem deus, ele começou a tremer, começou a sentir medo, e ao ver os deuses que
enchiam as fileiras atrás de Marduk, quando Kingu viu o bravo jovem deus, seus olhos repentinamente se
anuviaram.
Mas Tiamat, sem virar seu pescoço, cuspiu em desafio:
Arrogante, pensas que és o maioral? Os deuses estão saindo agora de seus esconderijos para habitar o teu.
Então o jovem deus levantou um furacão, a grande arma que ele lançou com palavras e terrível fúria:
- Por que estás te insurgindo, teu orgulho criando um abismo, teu coração escolhendo facções, para que
teus filhos rejeitem seus pais? Mãe de todos nós, por que tens de ser a mãe da guerra?
Fizeste de Kingu, aquele inepto, teu esposo! Deste a ele a posição de Anu, não que ele merecesse, porém.
Tens abusado dos deuses, meus ancestrais, em amarga malevolência ameaças Anshar, o rei de todos os
deuses. Tens incentivado as forças para batalha, preparado as armas de guerra. Levante-se portanto
sozinha, e lutaremos contra ti, e eu e eu somente contigo irei lutar.
Quando Tiamat ouviu Marduk, com seus nervos à flor da pele, ela ficou enraivecida e gritou para o alto,
suas pernas estremeceram, ela começou a fazer encantos e maldições, enquanto os deuses da guerra
afiavam as suas armas.
Então eles encontraram Marduk, o mais arguto dos deuses, e Tiamat engalfinhou-se com ele num
combate corpo a corpo.
Marduk lançou sua rede para prender Tiamat, e o implacável vento Imhullu veio por trás e bateu na face
de Tiamat. Quando ela abriu a boca para engolir Marduk, o jovem deus empurrou Inhullu para dentro
dela, de modo que a boca não se fechasse e que o vento rugisse na barriga da mãe original de todos os
deuses, para que sua carcaça explodisse, entumescida. Tiamat escancarou sua boca, e então Marduk
disparou a flecha que lhe cortou as entranhas, que atingiu seu estômago e útero da criação.
Agora que Marduk havia conquistado Tiamat, ele terminou com a vida dela. Ele a atirou ao chão, subindo
em sua carcaça. A líder da insurreição estava morta, seu corpo despedaçado, seu bando disperso.
Aqueles deuses que haviam marchado ao lado dela agora estavam cheios de terror. Para salvar suas
próprias vidas, se pudessem, voltaram suas costas ao perigo. Mas então eles foram rodeados num círculo,
do qual não podiam escapar.
Marduk esmagou as armas dos deuses rebeldes, e jogou-as com eles na sua rede. Lá, os deuses rebeldes
choraram e se esconderam pelos cantos, sofrendo a ira do deus.
Aqueles que resistiram, foram colocados em grilhões, que continham onze monstros, estes monstros os
filhos malditos de Tiamat, com todos os seus armamentos assassinos. O bando demoníaco da grande
deusa que havia marchado à frente dela, Marduk levou ao solo, de joelhos.
Mas Kingu, o usurpador, o chefe de todos eles, Marduk prendeu e o matou, tomando as Tábuas do
Destino, usurpadas sem direito por Kingu, e selando-as com seu selo, Marduk colocou-as em seu peito.
Quando tudo isto tinha sido feito, os adversários derrotados, o inimigo orgulhoso humilhado, quando o
triunfo de Anshar havia sido alcançado sobre o inimigo, e a vontade de Nudimmud satisfeita, então o
bravo Marduk apertou as cordas dos prisioneiros.
Ele voltou para onde Tiamat jazia acorrentada, ele abriu as pernas da deusa e espatifou seu crânio (pois a
clava não tinha misericórdia), ele cortou as artérias e o sangue dela jorrou na direção do Vento Norte para
os confins desconhecidos do Mundo Físico.
Quando os deuses viram tudo isto, eles riram alto e mandaram presentes a Marduk. Eles mandaram ao
jovem herói tributos agradecidos.
O jovem deus descansou. Ele olhou para o corpo amplo de Tiamat, ponderando sobre como usá-lo, o que
criar da carcaça morta. Ele abriu o corpo de Tiamat em dois, com a primeira metade, a superior, ele
construiu o arco dos céus, ele empurrou para baixo uma barra e fez uma sentinela para as águas, de forma
que estas jamais pudessem escapar.
Ele cruzou os céus para contemplar a infinita distância; ele se postou sobre apsu, aquele apsu construído
por Nudimmud sobre o antigo abismo que ele agora examinava, medindo-o e demarcando-o.
Ele estendeu a imensidão do firmamento, ele fez Esharra, o Grande Palácio, à sua imagem terrena, e Anu,
Enlil e Ea tiveram suas estações certas.

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