Chaves Teológicas da Missão do Povo de Deus
por Júlio P. T. Zabatiero
A missão do povo de Deus, em resposta ao agir de Deus no mundo, é
multidimensional e integral, conforme se descreve nas palavras do lema
evangélico: “todo o Evangelho, para o ser humano como um todo, a todo
o mundo, para todas as pessoas.” Muitas são as atividades ministeriais
que compõem a missão do povo de Deus, e é necessário que tenhamos
critérios teológicos sólidos que nos permitam definir prioridades e estabelecer hierarquizações dos ministérios da missão. O propósito deste estudo é refletir sobre dois critérios teológicos presentes no Antigo Testamento, que podem nos ajudar a organizar a atividade missionária da Igreja.
1. A benignidade de Javé e a libertação humana
Na reflexão teológica latino-americana, o êxodo é uma das chaves da
leitura do Antigo Testamento, e um dos eixos da sua teologia. Certamente “não foram as comunidades latino-americanas que descobriram a centralidade do êxodo. Esta é uma conquista da teologia bíblica internacional” (SCHWANTES, M. “Teologia Bíblica junto ao povo”in Teologia do Povo, no. 3 da revista Estudos da Religião, CEPGCR, São Bernardo do Campo, p. 51). O que caracteriza a teologia latino-americana em sua apropriação do êxodo é que o mesmo é lido realistica e conflitivamente, ou seja, é lido em sua concreticidade de luta de um povo oprimido pela sua libertação. Esta é a novidade fundamental da teologia latinoamericana (seria melhor dizer teologias latino-americanas): o êxodo é um evento histórico, social, concreto e deve ser lido como tal, não podendo ser espiritualizado ou mesmo reduzido a uma função tipológica dentro do “drama histórico da salvação”. Ler o êxodo historicamente significa lê-lo como evento libertador de escravos, de pessoas oprimidas por um sistema político injusto.
A questão em jogo aqui não é semântica ou meramente teórica. Deriva,
sim, da práxis missionária de inúmeras comunidades cristãs latinoamericanas. Em um continente pobre e dependente, redescobre-se a dignidade humana no relato dos hebreus escravizados no Egito que, sob a poderosa mão de Javé, são libertados para se tornarem povo de
Deus, um povo agente histórico de transformações sonhadas pelo próprio Deus. Esta conjunção do relato bíblico com a práxis missionária de comunidades cristãs latino-americanas sugere uma nova perspectiva
para a construção da teologia da missão a partir do Antigo Testamento.
Perspectiva dominada pela noção e experiência da liberdade divina e da
libertação humana. Quais são os aspectos teológicos do êxodo que podem servir de critérios para a nossa atuação missionária?
1.1. Javé é um Deus milagrosamente ativo nas lutas humanas por vida e
liberdade (Êx capítulos 13 a 15). A linguagem do milagre é típica do
campesinato israelita da época inicial da ocupação de Canaã. Camponeses
hebreus sem exército profissional lutavam contra as cidadesestado
cananéias com grande desvantagem, e assim, dependiam de
seu Deus e atribuíam a Javé a vitória em suas batalhas (por exemplo,
Juízes capítulos 4-5). Nesses relatos nota-se que o milagre de Javé não
é exibicionista, não visa estabelecer a glória do seu autor, mas realizase
a favor dos fracos, contra os poderosos. Como tal, é celebrado pelo
povo de Deus com hinos de louvor. O milagre estimula a festividade, o
culto, a celebração. O milagre libertador estimula a fé e a gratidão cantadas pelo povo que experimenta o poder de Deus (Êx 15 e Jz 5);
1.2. Javé é o Deus de hebreus A palavra hebreu, originariamente, não
indica um grupo étnico, mas um grupo social. Hebreu é o marginalizado
pelo poder político-econômico, somente bem tarde na história de Israel é
que o termo hebreu veio a ser usado como termo étnico. No livro do Êxodo, e somente nele, Javé é chamado de Deus dos hebreus (3:18; 5:3;
7:16; 9:1,13; 10:3), ou seja, Deus dos escravos oprimidos pelo Egito. Em
muitas referências ao povo de Deus, o termo hebreu é usado quando se
quer destacar a fragilidade, marginalização ou sofrimento do povo (I Sm
4:6,9; 13:13,19; 14:11,21; 29:3; Gn 14:13; 39:14; 40:15; 43:32; Dt 15:12;
Jr 34:9). Javé, antes de ser Deus de uma etnia é o Deus de oprimidos,
de marginalizados, de escravos – sejam de que etnia forem.
De Javé, no Êxodo, se afirma que viu o sofrimento e ouviu o clamor dos
escravos hebreus (Êx 2:23s; 3:7,9; 6:5). Javé optou por um segmento
populacional específico, optou por ouvir o clamor de escravos, é o deus
daqueles que clama sob os fardos da injustiça, sob o açoite de feitores.
Se o termo optou provoca dificuldades, cabe lembrar que ele apenas atualiza um outro termo teológico que também gera polêmica, o termo elegeu
(cf., por exemplo, Dt 7:7-8). Por ser parcial em seu agir na história
é que Javé é um Deus universal. O Deus de hebreus não é universal
porque criou todas as pessoas, mas exatamente porque – na história –
opta por algumas dentre todas as pessoas e povos que criou. Na linguagem paulina, Deus é universal porque optou pelos pecadores, ou,
nas palavras de Jesus, “eu não vim chamar justos, mas pecadores”, referindo-se a publicanos e pecadores desprezados pelo Judaísmo oficial
de sua época – publicanos e pecadores, alguns dentre os hebreus da
época de Jesus (v. Mc 2:13-17). Como afirma Schwantes, “ao ser designado ‘deus dos hebreus’, Javé, de saída é designado como Deus universal. Como Deus concreto na história de um dos grupos de hebreus,
Javé é, potencialmente, Deus de todos os escravos. A teologia véterotestamentária, em seu nascedouro, não é, pois, racial ou nacional, mas universal porque, concreta e parcialmente, comprometida com as classes populares” (Teologia do Antigo Testamento, São Leopoldo, EST, p.33)
1.3. Javé é o Deus da Terra. Ao prometer libertação aos hebreus, Javé
desencadeou um projeto histórico de grandes proporções (Êx 3:8,17). A
questão crucial para os hebreus não era apenas a de sair do Egito, mas
sair para deixar de ser hebreu, sair para viver com liberdade e dignidade.
Possuir terra seria uma condição indispensável para o projeto de vida
dos hebreus. Tendo a terra, teriam onde viver com liberdade, onde
produzir seu próprio alimento, conseguir seu sustento, reproduzir a vida.
Por isso, Javé promete conduzi-los a “uma terra boa, terra que mana leite
e mel”. A vida em liberdade, porém, não é fácil. É vida em conflito. A
terra prometida era a terra dos cananeus, dos heteus, dos amorreus ...
Era uma terra dominada por cidades-estado, opressoras como o regime
egípcio. Portanto, Javé estimula os hebreus a um novo projeto missionário libertador. Não basta sair do Egito e resolver seu problema. Há que se ir a Canaã e solidarizar-se com os hebreus lá, construir na terra da opressão um novo povo, que implantasse a Lei da liberdade, a Lei de Deus.
1.4. Javé é o Deus (da) gente. O relato do êxodo fala de um Deus que
se compadece do sofredor (2;23s; 3:7,17). É Deus que vê, ouve, conhece, desce ... Os verbos usados no texto bíblico descrevem um profundo envolvimento pessoal de Javé com os hebreus. Tão profundo que implicava no endurecimento do coração de Faraó (Êx 7:3s; 9:16; cf. 7:14), na ira contra Moisés (Êx 4:14) e, depois, contra os próprios hebreus que se rebelam contra Javé no deserto. A liberdade soberana da opção divina flui com clareza espantosa nas suas relações com hebreus e com os opressores de hebreus. Javé opta por hebreus, mas não se submete a eles, permanece como o Senhor. Ao Senhor Moisés clama em benefício dos hebreus acovardados diante da Terra da promessa: “Agora, pois, rogo-te que a força do meu Senhor se engrandeça; como tens falado, dizendo: O Senhor é longânimo, e grande em misericórdia, que perdoa a iniqüidade e a transgressão, ainda que não inocenta o culpado, e visita a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração. Perdoa, pois, a iniqüidade deste povo, segundo a grandeza da tua misericórdia, e como também tens perdoado a este povo desde a terra do Egito até aqui” (Nm 14:17-29). Javé é um deus pessoal, cuja personalidade é vibrante, contagiosa. Movido por benignidade (compaixão, misericórdia) Ele age em prol dos aflitos que clamam, e entra em um relacionamento pessoal com eles – relacionamento
de aliança. “Na tua benignidade guiaste o povo que libertaste” (Êx 15:13a). Em Êx 19:3-6 a benignidade de Deus produz um pacto,
uma aliança, e os hebreus são chamados de ‘reino de sacerdotes e
nação santa”, linguagem deuteronômica, fiel à personalidade e ao projeto
histórico de Javé. A aliança não “nacionaliza” a libertação, pelo contrário,
na sua particularidade (nação santa) a re-universaliza (reino de
sacerdotes).
Sendo pessoal, Javé demanda resposta também pessoal de seu povo.
Aos hebreus ele prometeu e concedeu libertação, mas exigiu fé, exigiu
uma resposta comprometida com o Seu projeto de liberdade. No relacionamento de aliança exige santidade e sacerdócio aos povos – já exige “evangelização” desde o início. É essa “evangelização” que configura o povo judeu, pois é a fé comum – em Javé – que une várias etnias, vários grupos de hebreus em um só povo. Poderíamos esquematizar estas dimensões missiológicas do êxodo da seguinte forma:
JAVÉ POVO DE DEUS
Universalidade Parcialidade
Incomparabilidade Historicidade
Pessoalidade Socialidade
Benignidade Santidade
2. A soberania de Javé e a utopia da liberdade
Na reflexão teológica latino-americana, o Reino de Deus é outra chave
de leitura e eixo teológico do Antigo Testamento. Como no caso do êxodo, esta constatação também é um dado já comum na pesquisa teológica internacional. Deus reina! Javé é rei! São exclamações teológicas centrais para a fé do povo de Deus no Antigo Testamento. Esta é a própria idéia fundamental da redescoberta do reino de Javé na teologia do Antigo Testamento: Javé reina, o Reino de Deus é um conceito dinâmico, tem a ver com a ação de Deus na história e vida dos povos: “a aplicação a Javé da palavra rei não tem estabelecida a sua data exata, mas o sentido é claro desde o princípio: a partir dos acontecimentos salvíficos experimentados por Israel e atribuídos a Javé, Ele é conhecido como aquele que tem domínio sobre Israel e sua história” (SOBRINO, J. Cristología desde América Latina, 2a. edição, p. 32) Êxodo 15:18 representa suficientemente a essência da idéia do reino de Deus no Antigo Testamento: “Javé reinará eterna e perpetuamente”. O cântico do qual este verso faz parte é um tributo de adoração a javé pelos seus atos poderosos a favor dos hebreus. É um reconhecimento repetido mais tarde por Gideão (Jz 8), que se recusa a reinar sobre Israel, afirmando: “nem eu dominarei sobre vós, nem meu filho, mas o Senhor sobre vós dominará” (Jz 8:23).
2.1. A universalidade do reinado de Javé
O Salmo 47, um dos salmos do Reino de Javé (47; 93; 96-99), é um
grande convite a todo o cosmos para louvar e exaltar o Deus Javé. (a)
Nos versos 3-6 Javé é aclamado como o rei de Israel, o povo que ele
mesmo escolheu como objeto especial de seu amor eletivo. Através
deste povo Javé iria difundir seu governo a todos os povos da terra e a
todo o cosmos. Povo escolhido, os hebreus agora organizados como
povo, deveriam ser as primeiras testemunhas da soberania de Javé. (b)
Nos versos 3, 8 e 9 Javé é exaltado como o rei de todas as nações, aquele que subjugou povos a Israel. Porém, o domínio exercido não é o
de um déspota, mas o de parceiro de aliança: “os inúmeros príncipes e
povos devem se tornar um só povo; já não serão os de fora, mas de
dentro da aliança” (KIDNER, D. Salmos: Introdução e Comentário, São
Paulo, Vida Nova e Mundo Cristão, p. 199). (c) O domínio real de Javé
abrange, além de Israel e todos os povos, “toda a terra” (versos 2b e 7).
A expressão toda a terra aponta para o domínio cósmico de Deus: “nestas declarações, que na sua maior parte pertencem à tradição da soberania real de Deus, Javé aparece como aquele que garante a ordem
cósmica ... (aquele que tem) a soberania sobre o cosmos” (OTOSSON,
M. “erets”, Theological Dictionary of the Old Testament, Grand Rapids,
Eerdmans, vol. 1, pp. 394-395). Em síntese, Javé é rei de um povo peculiar, a fim de que todos os povos venham a ser parte desse um povo; é o rei de todo o Universo, aquele que garante a permanência da vida na des-ordem criada pelo pecado humano.1
2.2. O caráter utópico da soberania de Javé
A soberania de Javé é universal e seu domínio tem um caráter utópico2
que pode ser percebido, por exemplo, em Isaías 11:1-16 e 65:17-25. As
características principais dessa utopia podem ser descritas com brevidade e simplicidade: (a) no reinado de Javé haverá um perfeito relacionamento entre as pessoas e Deus, caracterizado por: prática de um governo justo (11:1-5), resposta de Deus às orações antes delas serem proferidas (65:24); louvor alegre e exuberante diante da majestade divina (65:17-19), e pleno conhecimento de Deus (11:9); (b) haverá um perfeito relacionamento social, caracterizado por: ausência de conflitos
pessoas e nacionais (11:10-16); ausência de tristezas (65:19); ausência
de mortalidade infantil (65:20); apoio à velhice (65:20). Ninguém trabalhará
para encher os cofres de terceiros, mas todos gozarão do fruto das
próprias mãos (65:22-23); não haverá carentes, pois todos terão terra,
trabalho e dignidade (65:21-22); (c) haverá um perfeito relacionamento
entre as pessoas e a natureza, caracterizado pela ausência de violência
e problemas ecológicos (11:6-8a; 65:25).
Sendo utópico, o reinado de Javé se nos apresenta como tarefa missionária, rearticulada e retomada por Jesus Cristo, e entregue à Igreja. “Jesus articula um dado radical da experiência humana, sua principal esperança e dimensão utópica. E promete que já não será utopia, objeto de expectativa ansiosa (cf. Lc 3:15), mas topia, objeto de alegria para todo o povo (cf. Lc 2:9)” (L. Boff, citado em SOBRINO, J. Cristología desde América Latina, p. 33)
Podemos representar graficamente o reinado de Javé, como eixo
teológico da missão, da seguinte forma:
JAVÉ REINA SOBRE PERFEITO RELACIONAMENTO ENTRE
seu povo pessoas e Deus
todos os povos povos e povos
toda a terra pessoas e a natureza
Neste esquema vemos, nos relacionamentos horizontais, as dimensões
da integralidade da missão da Igreja: seu povo, dimensão existencialreligiosa; todos os povos, dimensão sócio-econômica; toda a terra, dimensão cósmico-ecológica. E no eixo da verticalidade, vemos a superação de particularismos teológicos. Se nos restringimos à primeira dimensão, caímos no fundamentalismo; se à segunda, no secularismo; se à terceira, no misticismo naturalista.
Diante da multidimensionalidade da missão da Igreja, perante os inúmeros e profundos desafios que a realidade presente nos coloca, é preciso saber priorizar e organizar a ação missionária da Igreja. O Antigo Testamento nos oferece pistas concretas para construirmos os critérios do discernimento missionário: a benignidade e a soberania de Javé. A partir delas, nelas e por meio delas, pode o povo de Deus realizar a sua missão!
1 Veja o capítulo “Reino de Deus: Paradigma da Missão da Igreja” neste mesmo volume.
2 Para o conceito de utopia, v. HINKELLAMMERT, F. J. Crítica à Razão Utópica, São Paulo, Paulus.
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sexta-feira, 18 de novembro de 2011
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
A imprevisibilidade fiel de Javé
Um eixo da Teologia do Antigo Testamento
Introdução
Tu és fiel!
Tu és fiel, Senhor, meu Pai celeste;
Pleno poder a teus filhos dará
Nunca mudaste, Tu nunca faltaste
Tal como eras, Tu sempre serás
Tu és fiel Senhor, Tu és fiel Senhor,
Dias após dia,
Com bênçãos sem fim
Tua mercê me sustenta
E me guarda
Tu és fiel Senhor, Fiel a mim!
Flores e frutos, montanhas e mares,
Sol, lua, estrelas, no céu a brilhar!
Tudo criaste, na terra e nos ares
Todo universo vem, pois, Te louvar
Pleno perdão Tu dás, paz, segurança
Cada momento me guias, Senhor
E no porvir, oh! que doce esperança
Desfrutarei do teu rico favor!
Animados pelo louvor, passemos ao estudo de nosso tema.
Pensando sobre fidelidade e imprevisibilidade
“... pelo que também lhes dei estatutos que não eram bons, e normas
pelas quais não alcançariam a vida; e permiti que se contaminassem com
seus dons sacrificiais, como quando queimavam a fogo tudo o que abre a
madre, para confundi-los a fim de que soubessem que eu sou Javé” (Ez
20,25-26). Como pode o profeta afirmar, em nome de Javé, que o Deus de
Israel confundiu seu povo? Se Deus assim confundiu o seu povo, exatamente
por meio da sua lei, como confiar em Javé? Como prever as ações e reações
de Javé? Solto, assim, o texto é por demais chocante. E mesmo quando
recolocado em seu contexto, ainda mantém a sua estranheza. Javé não é um
deus previsível! Fiel, sim. Previsível, não!
Este, certamente, não é um dos textos mais apreciados do Antigo
Testamento, nem um dos que servem de base para a articulação teológica e
práxica. Entretanto, em seu caráter marginal, periférico, aponta para um tema
central de toda a Escritura (Antigo e Novo Testamentos), o sacrifício de
primogênitos. Este, por sua vez, é o tema concreto a partir do qual
desenvolverei a concepção da imprevisibilidade fiel e fidelidade imprevisível
de Javé. Percorremos um caminho sinuoso ao longo do cânon bíblico e da
história do povo de Deus, iniciando com a morte simbólica do filho da
promessa (Gn 22,1-19), culminando na morte real do filho prometido (Jesus
crucificado). Ao longo desse caminho, os vínculos paradoxais entre a
fidelidade e a imprevisibilidade de Javé mostrar-se-ão e orientarão nosso
pensamento e nossa práxis.
1. Fidelidade
Fiel é a pessoa em quem se pode confiar, de quem se pode depender
quando necessário. A fidelidade é a permanência, em uma pessoa, das ações
e dos valores que permitem a ela, e aquelas com quem ela se relaciona, se
re-conhecer e ser re-conhecida. A fidelidade é a permanência na mudança, no
devir constante da construção e reconstrução da identidade pessoal, social,
cultural, política, religiosa. A fidelidade é a marca dos relacionamentos
confiáveis, que dão segurança, estabilidade em meio à incerteza e
imprevisibilidade da vida. Segundo Sponville, a fidelidade é a virtude da
memória: “É este o dever da memória: piedade e gratidão pelo passado. O
duro dever, o exigente dever, o imprescritível dever de ser fiel!”1 E se
fidelidade é o dever da memória, reconhecemos a fidelidade de Javé em sua
memória: pois Javé se lembra de seus compromissos, mas se esquece dos
pecados de seu povo! Memória que não é só re-viver o passado, mas também
re-significá-lo, transformando-o no presente e futuro.
Fidelidade é virtude relacional, e a sua validade depende do objeto de
sua atração: "a fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e proporcionalmente
– se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza não-quantificáveis
– ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à coragem
desinteressada, ao amor...”2 Embora não se referindo a Deus, o texto de
Sponville é fiel ao caráter de Javé: deus fiel ao seu povo que sofre (Ele é o
Deus que ouve o clamor), fiel à salvação de seu povo (desce e liberta
corajosamente se solidarizando com o povo que sofre), fiel à aliança que
estabelece com os seus (hesed divina, amor misericordioso e fiel que
sustenta a relação familiar de Javé com seu povo).
Em meio às vicissitudes da história, Javé permanece fiel, e porque Ele
é fiel, também "o justo viverá por sua fidelidade” (Hc 2,4). Javé é fiel sim, mas
não previsível. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, os
pensamentos de Javé não são os nossos pensamentos (Is 55,8), por isso
somos incapazes de capturar a Sua fidelidade e domesticar Javé conforme
nossa imagem e semelhança. No entanto, a fidelidade de Javé não é
sinônimo de previsibilidade. Javé é imprevisivelmente fiel: teimoso, se
preferirmos um adjetivo menos polido; zeloso, se escolhermos um adjetivo
extraído das Escrituras. O povo de Israel celebrava a fidelidade de Javé, mas
vez após vez, foi confundido por Javé para aprender que não poderia
controlar o seu deus como faziam outros povos do Antigo Oriente. Para
aprender que somente Javé é Deus, somente Ele mesmo é Javé – deus e não
ser humano.
2. Imprevisibilidade
A imprevisibilidade de Javé é a salvaguarda de sua liberdade, é a
proteção contra a idolatração de Javé, sua redução a um mero gênio da
lâmpada, a um mero guardião de interesses pessoais ou nacionais. Houve
quem tentasse aprisionar Javé em uma lógica sapiencial duvidosa, contra a
qual um livro como o de Jó se insurgiu. Afinal de contas, quem foi o
conselheiro de Javé na criação do mundo? Como prever as ações de alguém
que é tão sublime e exaltado? De um deus que se mantém oculto, mesmo
quando revelado (Is 45,15)? O mistério é característico de Javé, que não age
sem revelar seus segredos aos seus servos (Am 3,7), e que tornou
plenamente manifesto o mistério da Sua graça fiel em Jesus Cristo.
Javé é imprevisível, mas não arbitrário. Fielmente imprevisível, a sua
liberdade não O move de Seus propósitos amorosos, de Seus compromissos
solenes. Fidelidade imprevisível, lembrada após o dilúvio, e simbolizada pelo
arco da aliança, na bela linguagem mitopoética de Gn 9,8-19.
Imprevisibilidade fiel, daquele que jamais se esquece de seu amor, renovando
a cada manhã a sua misericórdia, a sua solidariedade para com as pessoas
que sofrem (Lm 3,22-23), pois "grande é a tua fidelidade”!
Imprevisível, mas não volúvel. Javé não troca de amores como quem
troca de roupa a cada novo dia. Imprevisivelmente fiel, Javé é amante
constante, jamais se afastando de quem dEle precisa. Amante fiel de toda a
sua criação, Javé não se retira, não se retrai, não a abandona à sua própria
sorte. Amante fiel de toda a humanidade que clama, Javé se apegou a Israel,
a ele se afeiçoou, por causa de Abraão, e de Abraão se afeiçoou por causa de
toda a humanidade (cf. Dt 7,7-11; Gn 12,1ss). Amante fiel, Javé enviou seu
filho amado ao mundo ...
Imprevisível como a vida, imprevisível como o cosmos. Imprevisível
como Ele mesmo, Javé é fiel e nos acolhe em sua família, em seu círculo de
amizades, de relacionamentos. Imprevisível, Javé permanece fiel a toda a
criação. Javé, acima de tudo, permanece fiel a Si mesmo. Amante e amigo, a
fidelidade de Javé é imprevisivelmente constante e firme. Imprevisivelmente
fiel, o compromisso solidário de Javé se renova a cada instante, renovando
conjuntamente toda a sua criação (cf. Is 43,19). Fielmente imprevisível, Javé
jamais se rende à mesmice, ao marasmo, ao tradicionalismo, à paralisia do
próprio medo. Fielmente imprevisível, Javé se faz notar por sua coragem de
viver entre nós, de habitar em Sua criação, de descer para nos fazer subir (cf.
Êx 3,6-10).
3. Construindo uma noção bíblica da fidelidade imprevisível de Javé
Acima, estudamos as noções de fidelidade e imprevisibilidade em nossa
cultura em diálogo com aspectos da cultura vétero-testamentária. Neste
tópico, ofereço alguns textos bíblicos para estimular você a construir a sua
própria compreensão da fidelidade imprevisível de Javé, sua imprevisibilidade
fiel.
3.1. O vocabulário vétero-testamentário da fidelidade de Javé
Em um dicionário de hebraico, você encontrará basicamente os
vocábulos acima, no quadro, que pertencem à raiz verbal !m;a.' Analisando o
uso deste vocabulário no Antigo Testamento, nota-se que o AT dá prioridade
ao uso dos verbos para caracterizar Javé. De fato, na cultura hebraica antiga,
a maior parte da fala a respeito de Deus era caracterizada por verbos de ação
e não pode adjetivos, substantivos ou por orações nominais. Boa parte das
teologias bíblicas escritas no mundo ocidental, entretanto, constrói seus
conceitos teológicos de forma mais típica de nossas culturas – ou seja, dando
preferência a orações nominais e ao uso de adjetivos e substantivos para falar
sobre Deus. Repare como até as definições do léxico, no quadro acima, são
mais ocidentais – por exemplo: ser fiel ao invés de agir de modo fiel. Reflita
sobre esta característica lingüística ao elaborar a sua própria noção da
fidelidade de Javé.
3.2. Confessando a fé em Javé que age fielmente
A fala sobre a fidelidade de Javé, no AT, se encontra principalmente
!m;a' ('¹man) confirmar, manter, sustentar (Qal); estar estabelecido,
firme, ser fiel (Nifal); ter certeza, confiar, crer (Hifil). !m,ao ('oemen)
fidelidade. !mea' ('¹m¢n) verdadeiramente, amém !M'a' ('omm¹n) firme
!muae ('¢m¥n) fiel, confiável hn"Wma/ ('§mûnâ) firmeza, fidelidade, segurança
hn"m.a' ('omnâ) II, verdadeiramente hn"m'a] ('¦m¹nâ) fé, certeza, segurança
~n"m.au ('¥mn¹m) verdadeiramente, de fato ~n"m.a' ('omn¹m)
verdadeiramente tm,a/ ('§met) firmeza, verdade !wOma' ('¹môn) II, artífice,
arquiteto.
em hinos, salmos de lamento, de ações de graças, e em declarações de fé.
Uma dessas declarações, que recebeu várias formas na história véterotestamentária,
é: "Saberás, portanto, que Javé teu Deus é o único Deus, o
Deus fiel (particípio Nifal do verbo !m;a)' , que mantém a aliança e o amor
(ds,x,h;w) por mil gerações, em favor daqueles que o amam e observam os
seus mandamentos; mas é também o que retribui pessoalmente aos que o
odeiam; faz com que pereça sem demora o que o odeia, retribuindo-lhe
pessoalmente” (Dt 7,9-10); ou "Javé, Javé. Deus de ternura e de piedade,
lento para a cólera, rico em graça e fidelidade (tm,a/w< ds,x,-br;w>); que guarda
sua graça a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado, mas a
ninguém deixa impune e castiga a falta dos pais nos filhos, e os filhos dos
seus filhos, até a terceira e a quarta geração” (Êx 34,6-7); ou "Tu Senhor,
Deus de piedade e compaixão, lento para a cólera, cheio de amor e fidelidade
(tm,a/w< ds,x,-br;w>)” (Sl 86,15).
Comentando Ex 34,6-7, Brueggemann afirma: "O que nos ocupa é o
efeito cumulativo de todos estes termos juntos, que indicam a intensa
solidariedade de Javé e seu compromisso com aquelas pessoas a quem Ele
está ligado. Os adjetivos generalizantes asseveram, com base nas sentenças
verbais de testemunho tais como Salmo 136, que a vida de Javé com Israel é
marcada por uma lealdade fundamental, inalienável. A vida de Israel, neste
ponto axial de risco em Ex 34, é agora garantida pela afirmação, dos próprios
lábios de Javé, que Javé se mantém em completa fidelidade a Israel, mesmo
entre aqueles que praticam 'iniqüidade, transgressão e pecado'.”3
3.3. A fidelidade imprevisível de Javé
A palavra hn"Wma/ é, muitas vezes, traduzida pelo termo verdade, como
no Salmo 146,6: "Ele mantém para sempre a verdade/fidelidade” (cf. Sl 25,10;
40,12; 57,4; 85,11; 89,15). Fiel, Javé é verdadeiro, pelo que também se fala
de que a lei do Senhor é fiel, que os seus testemunhos são fiéis e verdadeiros
(Sl 19; Sl 119). Agindo fielmente, Deus também orienta seu povo de forma
confiável, segura, verdadeira. Por isso, um texto como Ez 20,25-26 se
sobressai. "A idéia chocante de que Deus engana aqueles que o irritam com
seus pecados, pelos quais Ele então os destrói, já aparecera em 14,9 (o
profeta enganado); pelo que se prova o erro da moderna tradução evasiva
para horrorizá-los. A noção presente em Ezequiel é basicamente a mesma
presente nos textos que falam do endurecimento do coração de Faraó para
que a sua ruína se tornasse uma lição concreta (Ex 9,16; 10,2); ou a presente
na ordem a Isaías para embotar seus ouvintes (Is 6,9ss); ou a presente na
queixa em Is 63,17 (cf., tb, I Rs 18,36b)”4.
1 SPONVILLE, A. C. “Fidelidade”, http://www.scribd.com/doc/6986981/Andre-Comtesponville-Pequeno-
Tratado-Das-Grande-Virtudes-03. Acesso em 12.11.2007
2 Idem.
3 BRUEGGEMANN, W. Theology of the Old Testament. Minneapolis: Fortress Press, 1997, p. 217
4 GREENBERG, M. Ezekiel 1-20. Nova Iorque: Doubleday, 1983, p. 369.
Introdução
Há um consenso entre estudiosos do Antigo Testamento no tocante ao
fato de que a Teologia do Antigo Testamento não possui um centro, mas
vários eixos de significado que articulam a pluralidade do testemunho de
Israel ao agir e falar de seu Deus. Na teologia latino-americana recente, os
eixos do êxodo e do reinado de Javé têm sido bastante explorados e
discutidos, com resultados importantes para a compreensão teológica do
Antigo Testamento e seus vínculos com a nossa práxis cristã contemporânea.
Esses eixos destacam primariamente as dimensões social e política da fé em
Javé, dimensões importantes e relevantes para a fé cristã na América Latina.
A partir desses eixos, desenvolveu-se também toda uma reflexão e renovação
nas práticas da espiritualidade e das relações pessoais.
Um terceiro eixo da teologia do Antigo Testamento é o da
imprevisibilidade fiel de Javé (e, conseqüentemente, sua fidelidade
imprevisível). Este eixo visa destacar a dimensão pessoal-relacional do
testemunho sobre Javé no Antigo Testamento, mas não em detrimento das
dimensões social e política. A pessoa e as relações que ela estabelece
ocorrem em contextos sócio-políticos específicos, em situações concretas
que, tanto moldam como são moldadas pelas ações e relações pessoais.
A escolha também aponta para um dado fundamental da teologia do
Antigo Testamento que é a centralidade de Javé, seu agir e seu caráter. O
tema primeiro de uma teologia bíblica do AT é Javé, e ao redor desse tema
outros poderão ser tratados de forma mais adequada. O agir libertador de
Javé (êxodo), o agir transformador de Javé (crítica profética), seu agir
soberano (reinado de Javé) são dimensões que, juntamente com o agir
pessoal de Javé (imprevisibilidade fiel), constituem os parâmetros de uma
teologia do AT relevante para a práxis cristã contemporânea. Como não é
possível abordar todos os textos e temas mais importantes, o nosso enfoque
recairá sobre a imprevisibilidade fiel de Javé manifesta no quase sacrifício de
Isaque – em Gênesis 22,1-19 e algumas de suas releituras no próprio Antigo
Testamento e no Judaísmo antigo.
Nesta escolha, está presente a influência da chamada pósmodernidade,
ou hiper-modernidade (o termo preferido de Giles Lipovetski),
que recoloca a dimensão pessoal no centro das questões intelectuais,
políticas e econômicas. Uma leitura crítica na pós-modernidade, entretanto,
não nos permite isolar a dimensão pessoal das lutas políticas e sociais – algo
que também no AT não se podia fazer. Por fim, a escolha também visa
destacar a dimensão litúrgica do pensar e fazer teológico em conexão com a
práxis missional do povo de Deus. Um dos hinos mais cantados no mundo
evangélico contemporâneo tem como seu tema a fidelidade de Deus:
Tu és fiel!
Tu és fiel, Senhor, meu Pai celeste;
Pleno poder a teus filhos dará
Nunca mudaste, Tu nunca faltaste
Tal como eras, Tu sempre serás
Tu és fiel Senhor, Tu és fiel Senhor,
Dias após dia,
Com bênçãos sem fim
Tua mercê me sustenta
E me guarda
Tu és fiel Senhor, Fiel a mim!
Flores e frutos, montanhas e mares,
Sol, lua, estrelas, no céu a brilhar!
Tudo criaste, na terra e nos ares
Todo universo vem, pois, Te louvar
Pleno perdão Tu dás, paz, segurança
Cada momento me guias, Senhor
E no porvir, oh! que doce esperança
Desfrutarei do teu rico favor!
Animados pelo louvor, passemos ao estudo de nosso tema.
Pensando sobre fidelidade e imprevisibilidade
“... pelo que também lhes dei estatutos que não eram bons, e normas
pelas quais não alcançariam a vida; e permiti que se contaminassem com
seus dons sacrificiais, como quando queimavam a fogo tudo o que abre a
madre, para confundi-los a fim de que soubessem que eu sou Javé” (Ez
20,25-26). Como pode o profeta afirmar, em nome de Javé, que o Deus de
Israel confundiu seu povo? Se Deus assim confundiu o seu povo, exatamente
por meio da sua lei, como confiar em Javé? Como prever as ações e reações
de Javé? Solto, assim, o texto é por demais chocante. E mesmo quando
recolocado em seu contexto, ainda mantém a sua estranheza. Javé não é um
deus previsível! Fiel, sim. Previsível, não!
Este, certamente, não é um dos textos mais apreciados do Antigo
Testamento, nem um dos que servem de base para a articulação teológica e
práxica. Entretanto, em seu caráter marginal, periférico, aponta para um tema
central de toda a Escritura (Antigo e Novo Testamentos), o sacrifício de
primogênitos. Este, por sua vez, é o tema concreto a partir do qual
desenvolverei a concepção da imprevisibilidade fiel e fidelidade imprevisível
de Javé. Percorremos um caminho sinuoso ao longo do cânon bíblico e da
história do povo de Deus, iniciando com a morte simbólica do filho da
promessa (Gn 22,1-19), culminando na morte real do filho prometido (Jesus
crucificado). Ao longo desse caminho, os vínculos paradoxais entre a
fidelidade e a imprevisibilidade de Javé mostrar-se-ão e orientarão nosso
pensamento e nossa práxis.
1. Fidelidade
Fiel é a pessoa em quem se pode confiar, de quem se pode depender
quando necessário. A fidelidade é a permanência, em uma pessoa, das ações
e dos valores que permitem a ela, e aquelas com quem ela se relaciona, se
re-conhecer e ser re-conhecida. A fidelidade é a permanência na mudança, no
devir constante da construção e reconstrução da identidade pessoal, social,
cultural, política, religiosa. A fidelidade é a marca dos relacionamentos
confiáveis, que dão segurança, estabilidade em meio à incerteza e
imprevisibilidade da vida. Segundo Sponville, a fidelidade é a virtude da
memória: “É este o dever da memória: piedade e gratidão pelo passado. O
duro dever, o exigente dever, o imprescritível dever de ser fiel!”1 E se
fidelidade é o dever da memória, reconhecemos a fidelidade de Javé em sua
memória: pois Javé se lembra de seus compromissos, mas se esquece dos
pecados de seu povo! Memória que não é só re-viver o passado, mas também
re-significá-lo, transformando-o no presente e futuro.
Fidelidade é virtude relacional, e a sua validade depende do objeto de
sua atração: "a fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e proporcionalmente
– se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza não-quantificáveis
– ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à coragem
desinteressada, ao amor...”2 Embora não se referindo a Deus, o texto de
Sponville é fiel ao caráter de Javé: deus fiel ao seu povo que sofre (Ele é o
Deus que ouve o clamor), fiel à salvação de seu povo (desce e liberta
corajosamente se solidarizando com o povo que sofre), fiel à aliança que
estabelece com os seus (hesed divina, amor misericordioso e fiel que
sustenta a relação familiar de Javé com seu povo).
Em meio às vicissitudes da história, Javé permanece fiel, e porque Ele
é fiel, também "o justo viverá por sua fidelidade” (Hc 2,4). Javé é fiel sim, mas
não previsível. Os caminhos de Deus não são os nossos caminhos, os
pensamentos de Javé não são os nossos pensamentos (Is 55,8), por isso
somos incapazes de capturar a Sua fidelidade e domesticar Javé conforme
nossa imagem e semelhança. No entanto, a fidelidade de Javé não é
sinônimo de previsibilidade. Javé é imprevisivelmente fiel: teimoso, se
preferirmos um adjetivo menos polido; zeloso, se escolhermos um adjetivo
extraído das Escrituras. O povo de Israel celebrava a fidelidade de Javé, mas
vez após vez, foi confundido por Javé para aprender que não poderia
controlar o seu deus como faziam outros povos do Antigo Oriente. Para
aprender que somente Javé é Deus, somente Ele mesmo é Javé – deus e não
ser humano.
2. Imprevisibilidade
A imprevisibilidade de Javé é a salvaguarda de sua liberdade, é a
proteção contra a idolatração de Javé, sua redução a um mero gênio da
lâmpada, a um mero guardião de interesses pessoais ou nacionais. Houve
quem tentasse aprisionar Javé em uma lógica sapiencial duvidosa, contra a
qual um livro como o de Jó se insurgiu. Afinal de contas, quem foi o
conselheiro de Javé na criação do mundo? Como prever as ações de alguém
que é tão sublime e exaltado? De um deus que se mantém oculto, mesmo
quando revelado (Is 45,15)? O mistério é característico de Javé, que não age
sem revelar seus segredos aos seus servos (Am 3,7), e que tornou
plenamente manifesto o mistério da Sua graça fiel em Jesus Cristo.
Javé é imprevisível, mas não arbitrário. Fielmente imprevisível, a sua
liberdade não O move de Seus propósitos amorosos, de Seus compromissos
solenes. Fidelidade imprevisível, lembrada após o dilúvio, e simbolizada pelo
arco da aliança, na bela linguagem mitopoética de Gn 9,8-19.
Imprevisibilidade fiel, daquele que jamais se esquece de seu amor, renovando
a cada manhã a sua misericórdia, a sua solidariedade para com as pessoas
que sofrem (Lm 3,22-23), pois "grande é a tua fidelidade”!
Imprevisível, mas não volúvel. Javé não troca de amores como quem
troca de roupa a cada novo dia. Imprevisivelmente fiel, Javé é amante
constante, jamais se afastando de quem dEle precisa. Amante fiel de toda a
sua criação, Javé não se retira, não se retrai, não a abandona à sua própria
sorte. Amante fiel de toda a humanidade que clama, Javé se apegou a Israel,
a ele se afeiçoou, por causa de Abraão, e de Abraão se afeiçoou por causa de
toda a humanidade (cf. Dt 7,7-11; Gn 12,1ss). Amante fiel, Javé enviou seu
filho amado ao mundo ...
Imprevisível como a vida, imprevisível como o cosmos. Imprevisível
como Ele mesmo, Javé é fiel e nos acolhe em sua família, em seu círculo de
amizades, de relacionamentos. Imprevisível, Javé permanece fiel a toda a
criação. Javé, acima de tudo, permanece fiel a Si mesmo. Amante e amigo, a
fidelidade de Javé é imprevisivelmente constante e firme. Imprevisivelmente
fiel, o compromisso solidário de Javé se renova a cada instante, renovando
conjuntamente toda a sua criação (cf. Is 43,19). Fielmente imprevisível, Javé
jamais se rende à mesmice, ao marasmo, ao tradicionalismo, à paralisia do
próprio medo. Fielmente imprevisível, Javé se faz notar por sua coragem de
viver entre nós, de habitar em Sua criação, de descer para nos fazer subir (cf.
Êx 3,6-10).
3. Construindo uma noção bíblica da fidelidade imprevisível de Javé
Acima, estudamos as noções de fidelidade e imprevisibilidade em nossa
cultura em diálogo com aspectos da cultura vétero-testamentária. Neste
tópico, ofereço alguns textos bíblicos para estimular você a construir a sua
própria compreensão da fidelidade imprevisível de Javé, sua imprevisibilidade
fiel.
3.1. O vocabulário vétero-testamentário da fidelidade de Javé
Em um dicionário de hebraico, você encontrará basicamente os
vocábulos acima, no quadro, que pertencem à raiz verbal !m;a.' Analisando o
uso deste vocabulário no Antigo Testamento, nota-se que o AT dá prioridade
ao uso dos verbos para caracterizar Javé. De fato, na cultura hebraica antiga,
a maior parte da fala a respeito de Deus era caracterizada por verbos de ação
e não pode adjetivos, substantivos ou por orações nominais. Boa parte das
teologias bíblicas escritas no mundo ocidental, entretanto, constrói seus
conceitos teológicos de forma mais típica de nossas culturas – ou seja, dando
preferência a orações nominais e ao uso de adjetivos e substantivos para falar
sobre Deus. Repare como até as definições do léxico, no quadro acima, são
mais ocidentais – por exemplo: ser fiel ao invés de agir de modo fiel. Reflita
sobre esta característica lingüística ao elaborar a sua própria noção da
fidelidade de Javé.
3.2. Confessando a fé em Javé que age fielmente
A fala sobre a fidelidade de Javé, no AT, se encontra principalmente
!m;a' ('¹man) confirmar, manter, sustentar (Qal); estar estabelecido,
firme, ser fiel (Nifal); ter certeza, confiar, crer (Hifil). !m,ao ('oemen)
fidelidade. !mea' ('¹m¢n) verdadeiramente, amém !M'a' ('omm¹n) firme
!muae ('¢m¥n) fiel, confiável hn"Wma/ ('§mûnâ) firmeza, fidelidade, segurança
hn"m.a' ('omnâ) II, verdadeiramente hn"m'a] ('¦m¹nâ) fé, certeza, segurança
~n"m.au ('¥mn¹m) verdadeiramente, de fato ~n"m.a' ('omn¹m)
verdadeiramente tm,a/ ('§met) firmeza, verdade !wOma' ('¹môn) II, artífice,
arquiteto.
em hinos, salmos de lamento, de ações de graças, e em declarações de fé.
Uma dessas declarações, que recebeu várias formas na história véterotestamentária,
é: "Saberás, portanto, que Javé teu Deus é o único Deus, o
Deus fiel (particípio Nifal do verbo !m;a)' , que mantém a aliança e o amor
(ds,x,h;w) por mil gerações, em favor daqueles que o amam e observam os
seus mandamentos; mas é também o que retribui pessoalmente aos que o
odeiam; faz com que pereça sem demora o que o odeia, retribuindo-lhe
pessoalmente” (Dt 7,9-10); ou "Javé, Javé. Deus de ternura e de piedade,
lento para a cólera, rico em graça e fidelidade (tm,a/w< ds,x,-br;w>); que guarda
sua graça a milhares, tolera a falta, a transgressão e o pecado, mas a
ninguém deixa impune e castiga a falta dos pais nos filhos, e os filhos dos
seus filhos, até a terceira e a quarta geração” (Êx 34,6-7); ou "Tu Senhor,
Deus de piedade e compaixão, lento para a cólera, cheio de amor e fidelidade
(tm,a/w< ds,x,-br;w>)” (Sl 86,15).
Comentando Ex 34,6-7, Brueggemann afirma: "O que nos ocupa é o
efeito cumulativo de todos estes termos juntos, que indicam a intensa
solidariedade de Javé e seu compromisso com aquelas pessoas a quem Ele
está ligado. Os adjetivos generalizantes asseveram, com base nas sentenças
verbais de testemunho tais como Salmo 136, que a vida de Javé com Israel é
marcada por uma lealdade fundamental, inalienável. A vida de Israel, neste
ponto axial de risco em Ex 34, é agora garantida pela afirmação, dos próprios
lábios de Javé, que Javé se mantém em completa fidelidade a Israel, mesmo
entre aqueles que praticam 'iniqüidade, transgressão e pecado'.”3
3.3. A fidelidade imprevisível de Javé
A palavra hn"Wma/ é, muitas vezes, traduzida pelo termo verdade, como
no Salmo 146,6: "Ele mantém para sempre a verdade/fidelidade” (cf. Sl 25,10;
40,12; 57,4; 85,11; 89,15). Fiel, Javé é verdadeiro, pelo que também se fala
de que a lei do Senhor é fiel, que os seus testemunhos são fiéis e verdadeiros
(Sl 19; Sl 119). Agindo fielmente, Deus também orienta seu povo de forma
confiável, segura, verdadeira. Por isso, um texto como Ez 20,25-26 se
sobressai. "A idéia chocante de que Deus engana aqueles que o irritam com
seus pecados, pelos quais Ele então os destrói, já aparecera em 14,9 (o
profeta enganado); pelo que se prova o erro da moderna tradução evasiva
para horrorizá-los. A noção presente em Ezequiel é basicamente a mesma
presente nos textos que falam do endurecimento do coração de Faraó para
que a sua ruína se tornasse uma lição concreta (Ex 9,16; 10,2); ou a presente
na ordem a Isaías para embotar seus ouvintes (Is 6,9ss); ou a presente na
queixa em Is 63,17 (cf., tb, I Rs 18,36b)”4.
1 SPONVILLE, A. C. “Fidelidade”, http://www.scribd.com/doc/6986981/Andre-Comtesponville-Pequeno-
Tratado-Das-Grande-Virtudes-03. Acesso em 12.11.2007
2 Idem.
3 BRUEGGEMANN, W. Theology of the Old Testament. Minneapolis: Fortress Press, 1997, p. 217
4 GREENBERG, M. Ezekiel 1-20. Nova Iorque: Doubleday, 1983, p. 369.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
domingo, 21 de novembro de 2010
Oração da entrega
Eu não agüento mais as mesmas ruas
Eu não agüento ver minha criação solitária
Eu não agüento mais meias conquistas
Eu não agüento ver que já não conheço ninguém na cidade.
A comunicação caiu, como uma liberdade interrompida.
Meus diplomas não me dão cargo publico.
Minha sapiência não me serve na hora de pedir esmola.
Toma minha vida
Toma a direção
Me dá uma direção com arco íris no fundo
Pai...
Me dá vida onde quer que eu esteja.
Seja no poço de Jacó, ou nos pés da tua cruz
Bebendo tua lagrima
Misturada com teu sangue
E plantando uma flor no barro
Na lama da tua criação.
Leva-me a tua Verdade, para que eu possa escrever um evangelho com a minha vida,
Pelo teu Espírito, em teu nome, para tua glória.
Que eu envelheça feliz como os teus anciãos
Para que eu veja teus raios de luz na grande manhã.
Para que eu saiba que de nada poderia fazer além do que fiz.
Para eu fazer o impossível com a força que me permitir.
E na minha fraqueza que eu possa te sentir,
Tocar tuas vestes e não larga-las até saber que fui abençoado,
Não com essas bênçãos que vendem por aí nas fábricas de apóstolos,
Mas que fui abençoado para seguir viagem,
Seguir em frente com a tua mensagem
Que queima meu coração e me faz viver
Na contemplação e na repartição da vida
Com toda a alegria que a impulsiona.
E que se faz necessário.
Em nome de Jesus o Salvador eu oro.
Amém.
Diego Marcell
26-08-10
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Um canto atual

Não existe mais festa sem Deus
Agora existe uma perspectiva para pessoas
Eu já sinto no clima um recomeço
Agora só preciso saber o que será
Como será.
Dentro de uma película
Entre o simples, natural
E a filosofia mais inóspita
Eu quero viver,
Sentindo uma presença da certeza
Daquele que me ouve
E me faz entender.
Desvendar novos mistérios
E construir com tijolos o pós-moderno
Dentro da memória dos computadores
Que armazenam o sentido de tudo.
Eu posso estar ouvindo os sons,
Eu posso estar vendo o clima,
Mas tudo só vale porque te sinto
E sei que algum sentido para isto há.
As noites de verão
E o meu velho clichê de rock
As pessoas e o mar
São mais que óbvios para resplandecerem sua vontade.
Se hoje new wave, um pouco pós-punk
O som é temporal
Mas tua razão, teu Ser fogem disso
Para em tudo prevalecer.
Eis me aqui, meus joelhos, meu desejo por ti,
Por amar a tudo que era bom,
Dês do primeiro grito da criação.
Diego Marcell
04-09-10
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Futuro D+

A primeira década
Do vigésimo primeiro século
Após a primeira vinda do Messias
Ainda me traz
Mil vezes mais
Sobre ares artificiais
De florestas de néon
De cérebros elétrons
De magnetismo reluzente
Ainda assim
As letras do seu livro
Permanecem marcadas
Visíveis
E cheias
No Universo.
Apesar de tanto infinito
Dentro das nossas amarrotadas gavetas
Apesar de tantos livros
Esquecidos na lixeira
O teu está ditando a criação.
Apesar de tantos tons
De mudarem o refrão
De inflamarem o que era natural
Em troca de atenção
Apesar de tanta difamação
Teu currículo continua sobressaindo
Sobre os falsos dons.
Apesar de tanta genética genérica
Em laboratórios das idéias inéditas
O teu mistério continua atraindo
Sobressaindo
Esculpindo
A nossa limitada
Compreensão.
Diego Marcell
04-09-10
sábado, 16 de outubro de 2010
Sobre o conceito de Presença de Deus

por Caio Fábio
“Nosso conceito de presença de Deus precisa ser mudado. Presença de Deus não é só a gente ficar arrepiado (enquanto desgraçado): se o culto está abençoado, todo mundo sente uns calafrios, arrepios – presença de Deus! Saem dali, a mulher dele é uma jararaca, ele uma cascavel, o filho é uma cobrinha; ele todo cheio de tiques, escangalhado, arruinado, mordendo a língua, vai ter que tomar Valium #5 para dormir. Sentiu a presença de Deus. Quem sabe não era o ventilador? Ele se arrepiou e pensou que era Deus!
Presença de Deus implica saúde de Deus. Presença de Deus implica em recuperação da imagem e semelhança de Deus, de maneira nítida. Senão, essa presença de Deus é absolutamente irrelevante: presença de Deus que não muda o meu ser, que não salva a minha psiquê, que só tira a minha alma do inferno e não tira o inferno da minha alma; presença de Deus que não me tira o sentimento de culpa, que não afasta as obras mortas, passadas; presença de Deus que não me converte ao meu filho e que não converte o meu filho a mim; presença de Deus que não me ensina a tratar minha mulher com dignidade, poesia e amor, e que não me dá a condição de recuperar o respeito e amor que ela teve por mim e perdeu por causa da minha maneira desajeitada de ser crente, que presença de Deus é essa?
Presença de Deus tem que implicar em presença de Deus. Não é passagem de Deus, é um Deus que fica; não é um carteiro que entrega um recadinho e vai embora; é presença na vida de cada um de nós.”
Fonte Rev Baggio
terça-feira, 14 de setembro de 2010
o deus domesticado

“Quem crê na soberania de Deus, crê, forçosamente na contemporaneidade dos dons espirituais. (…)
Eu vejo uns calvinistas por aí: – a soberania de Deus… Eu pergunto: ‘Você crê na contemporaneidade dos dons espirituais?’
- Ah, não! Passou! Deus não age mais assim.
- Interessante! Quem disse?
- Há estudos de teólogos importantes…
Isso se chama de ‘domesticação de Javé’. Javé domesticado pelos teólogos. Os fariseus fizeram assim, os ortodoxos fazem assim, os liberais também; todo mundo domestica Deus um pouquinho; colocam a Deus numa coleira e quase o chamam de totó! Isso é muito sério! Apelidam Deus de todo tipo, limitam-no, restringem-no; somente ao seu assovio espiritual, ele obedece. É um deus domesticado. E isso é igual a Baal, é igual a Júpiter e a qualquer outra divindade que o homem manipula. O Deus das Escrituras é soberano e é livre. É livre! E uma das implicações dessa liberdade de Deus é que ele continua sendo um Deus que intervém; um Deus que age.”
Fonte Rev. Baggio
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sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Cristianismo e cultura – desde a antiguidade

“se alguém precisa de comida, deixe-o ordenhar a ovelha; se precisa de roupa, deixe-o tosquiá-la; da mesma forma deixe-me usufruir de erudição grega.” (clemente de Alexandria)
“onde quer que haja verdade ela vem de Cristo e pertence a nós.” (Justino mártir)
Na contra-cultura
“eu creio porque é absurdo, o filho de Deus morreu, isso é incrível porque é uma tolice, e Ele foi morto e ressuscitou, isso é certo porque é impossível.” (Tertuliano crazy e psicodélico)
Adorai o Senhor na beleza da sua santidade, tremei diante dele, todas as terras. Dizei entre as nações; reina o Senhor. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga os povos com equidade. (Salmo 96:9-10)
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terça-feira, 7 de setembro de 2010
O universo do mistério

17-08-10
Como pode ter coisa tão pequena
E tanta coisa dentro da coisa pequena?
Nuvem eletrônica
Ou coisas que eu não vejo,
Mas alguém vê o invisível
E esse é o sopro que expandiu o universo.
E continua expandindo.
Estamos pensando, pois somos imagem do Criador.
Estamos atravessando o tempo, nada é abstrato.
São números, são realidades divinas onde habitamos,
Onde contemplamos o infinito.
Quem contempla pela força da ciência, pela vivência da fé,
Pela reflexão que não se explica...
Este adora e louva com verdade.
Infinito universo, galáxias e outras seqüências;
Aquilo que não vejo, mas já podem me mostrar.
Cegos são repulsivos, num mundo lindo que eles não conseguem perceber.
São cegos do espírito, com almas necrosadas em corpos que pulsam a naturalidade do que segue.
E é Deus que segue com Seu ato de Ser.
Fora da existência Ele formava o calor no nada,
Para tudo ser a partir de então,
Através de uma explosão,
Vida.
Diego Marcell
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