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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Dez coisas que aprendi [errado] sobre Deus com os pastores da TV


Já sou um tanto antigo nessa coisa de TV e ano que vem completo a maioridade etária nessa coisa de religião. Sou de um tempo em que as manhãs de sábado tinham Jimmy Swagartt na antiga TV Bandeirantes (Band vem daí, novinhos) e Caio Fábio aparecia vez ou outra na Globo (sonho de consumo e masturbação egoica do Silas atualmente). Vi os primeiros programas do Edir ainda cabeludo e tenho até saudades do tempo em que o Malafaia usava bigode.

De lá pra cá, adultérios e escândalos à parte, muita coisa mudou. O que era pouco se acabou… Opa, música errada. O que era doce azedou. A Band hoje tem dúzias de pastores em sua programação, a Globo resolveu não se misturar mais com essa gentalha, a Record foi comprada pela veterotestamentária IURD e, como grana pouca é esmola, vieram a Record News e várias estações de rádio. Por falar em gentalha, o SBT continua firme e forte (tá, nem tão firme assim), resistindo à investida dos milhões feitos de tostões.

Bom, mas não é esse o mote aqui. Quero compartilhar dez coisas que aprendi ao longo dos anos sobre Deus com os pastores televisivos. Vamos lá:

1. Deus é bipolar
Pra não dizer esquizofrênico, digo que aprendi que Deus é bipolar. Afinal, cada um dos quinze televangelistas (os que consegui me lembrar enquanto escrevo) diz que Deus é, pensa e age de um jeito diferente. Uma hora Deus é amoroso e perdoador, na mesma hora, mas em canal diferente, Deus é irado e pronto a nos destruir com requintes de crueldade. Um diz que ele só quer o coração, outro diz que “é tudo ou nada”, ou melhor, com Deus “ou dá ou desce”. Como sei que nenhum deles mente ou fala do que não conhece, a conclusão óbvia é que todos estão certos e, portanto, Deus é, digamos, bipolar. Isso sem contar no discurso dúbio de “graça e alegria” pro pecador e “choro e ranger de dentes” pro já converso.

2. Jesus é masoquista
Juro que já ouvi “Jesus exultou de alegria naquela cruz” e “Jesus ansiava pela crucificação”. Até entendo o que Max Lucado diz quando fala que “Ele escolheu os cravos”, mas a quantidade de descrições adjetivadas e minuciosas sobre os sofrimentos de Jesus me dão a certeza de que os pastores acreditam que Jesus gostava de sofrer.

3. Deus já foi de direita, hoje é de esquerda
Na verdade, o que tenho visto ao longo dos anos é que Deus é governista, sempre, de forma irrevogável (oi, Mercadante). Os pastores dizem que devemos orar pelas autoridades (o que é bíblico), mas o que mostram é que Deus gosta mesmo é de um poderzinho temporal. Poucas vezes vi um pastor televisivo reclamando do desmazelo e ineficiência dos governos. Antes, mostram sempre seus melhores ângulos quando suas igrejas são visitadas pelos políticos. Será que rola um cabide de empregos celestial? Acho que sim, pois em toda denominação televisionada, Deus tem seus candidatos escolhidos e maldições prontas pros rebeldes que ousarem desafiar a lei do “irmão vota em irmão”.

4. Deus não inventou as borboletas
Coitadas, criaturas infernais, crias de Belzebu. Sim, numa dessas matinês vi um pastor explicando como a Nova Era estava usando a Disney para nos encher de mensagens subliminares (que de tão óbvias penso serem sublinhadas) e nos enfeitiçar. Prova de que os desenhos animados trazem a mensagem do capiroto? Sempre há uma borboleta voando quando o personagem corre perigo. Tadinho do Bambi, que além de órfão virou um ser possesso por uma pomba-gira. E o Corujito? Então, não se esqueçam: borboletas são bichinhos do mal.

5. Deus gosta duma muvuca
Deus é um cara popular, digo mais, popularesco. O Céu deve parecer o Programa do Ratinho nos velhos tempos. A julgar pelos cultos transmitidos, em especial os de extors…, digo, exorcismo, Deus não gosta daquela coisa certinha, ordeira e calma. O pau quebra e o barraco treme quando Deus está presente, foi o que aprendi com a pastorada da TV. Desde os tempos de Davi Miranda que sabemos que o barulho é porque Deus está operando (e sem anestesia).

6. Deus é surdo
Seria essa uma redundância com o item acima? Acho que não. Mas deixe-me corrigir: Deus é deficiente auditivo (em tempos de politicamente correto, sabe como é, né?). Ocorre que aprendi ao longo de quase duas décadas que é preciso falar alto, repetir mais alto e, por último gritar com Deus para que ele ouça nossos pedidos. Sempre que ouvir a deixa “com mais fé, irmão” é porque naquele dia a coisa tá difícil de chegar aos ouvidos divinos. Encha os pulmões e tente a sorte.

7. Deus é chantagista
Triste constatação. Mas não tem jeito. Aprendi muito bem explicadinho que Deus dá piti, toma presentes, fica de mal, emburra e, às vezes, até promete ir embora e levar a família com ele, nos deixando na sarjeta da solidão, na rua da amargura, na porta do inferno abraçados com o capeta. Tudo isso se não cumprirmos cada um dos caprichos divinos que os pastores gente fina fizeram o favor de catalogar e nos repassar pra não ficarmos mal na fita com o Poderoso. Coisa parecida com as avós que dizem horrores se não formos todo domingo almoçar na casa delas.

8. Deus tem problemas em manter sua santidade
Das coisas que aprendi com a pastorada da TV, talvez essa seja a que mais me confundiu de início. Segundo vi e ouvi em anos de programação evangélica, Deus é santo, muito santo, santíssimo. Ok, é bíblico. Até Jesus confirmou isso. Mas essa santidade toda dá um trabalhão. É uma mania de limpeza sem fim. É coisa de limpar as vestes toda semana, a preocupação dos pastores em lavar os pés do povo da igreja em água com colônia de rosas, em vestir um manto sagrado, em se enxugar numa toalhinha abençoada, até em por uma touquinha na cabeça já falam. É como se santidade fosse saúde, mas pra se manter saudável, Deus não permitisse que chegássemos perto antes de tirar todos os germes da roupa, da pele e dos sapatos.

9. Deus gosta mais dos caçulas
Diz Jesus que Deus é pai, mas os pastores me ensinaram a verdade: Deus é avô. E tem predileção pelos caçulas, pelos novinhos (sem menção à pedofilia aqui, faça o favor). Ocorre que Deus vai perdendo a graça com os assuntos mais antigos, dos pastores e cristãos mais velhos. Deus gosta é de novidades, dos assuntos do momento. Pra que hinos e canções, se a onda agora é louvorzão e baladas gospel? “Deus é jovem” ouvi uma bispa dizer antes de ser presa com dólares na ca…pa da Bíblia. “Deus é dez”, “Deus é da hora”, “Deus é irado” (se bem que faz sentido se lembrarmos que Deus é bipolar) são coisas que aprendi vendo os programas televisivos mais animadinhos. Sem contar que Deus agora tá numa onda de grupinhos que precisa ver. No meu tempo, era panelinha, mas tudo bem.

10. Deus gosta mesmo é da minha grana
Por fim, algo que me decepcionou em Deus, mas que agradeço aos pastores da TV pela sinceridade com que tratam o assunto: Deus é interesseiro. Lendo sobre Jesus no Novo Testamento, cheguei a ter uma primeira impressão legal de Deus sobre esse aspecto. Mas logo os pastores me contaram a verdade. Se eu quiser alguma coisa com Deus, o jeito mais fácil é molhar a mão do ser divino. Tenho minhas dúvidas agora com o lance de “dono do ouro e da prata”, mas vá saber. Sei que pastor não mente, portanto a coisa a se fazer para conseguir algo de Deus é pagar. Há pastores mais modestos que operam nos 10% regulamentares, mas há alguns que por um pouco (ou muito) a mais conseguem agilizar a bênção. Há taxas específicas, como os R$ 900,00 para a casa própria ou os 30% pra Deus abrir as portas. Mas algumas regalias e favores divinos só funcionam na base do tudo ou nada. Esteja (com o talão de cheques) preparado.

Não sei bem o que fazer com tudo isso que aprendi sobre Deus com os pastores da TV. Alguma dica?

E se Jesus fosse neopentecostal?


Se Jesus fosse neopentecostal, não venceria satanás pela palavra, mas teria o repreendido, o amarrado, mandado ajoelhar, dito que é derrotado, feito uma sessão de descarrego durante 7 terças-feiras, aí sim ele sairia. (Mt 4:1-11)

Se Jesus fosse neopentecostal, não teria feito simplesmente o “sermão da montanha”, mas teria realizado o Grande Congresso Galileu de Avivamento Fogo no Monte, cuja entrada seria apenas 250 Dracmas divididas em 4 vezes sem juros. (Mt 5:1-11)

Se Jesus fosse neopentecostal, jamais teria dito, no caso de alguém bater em uma de nossa face, para darmos a outra; Ele certamente teria mandado que pedíssemos fogo consumidor do céu sobre quem tivesse batido pois “ai daquele que tocar no ungido do senhor” (Mt 5 :38-42)

Se Jesus fosse neopentecostal, não teria curado o servo do centurião de Cafarnaum à distância, mas o mandaria levar o tal servo em uma de suas reuniões de milagres e lhe daria uma toalhinha ungida para colocar sobre o seu servo durante 7 semanas, aí sim, ele seria curado. (Mt 8: 5-13)

Se Jesus fosse neopentecostal, não teria multiplicado pães e peixes e distribuído de graça para o povo, de jeito nenhum!! Na verdade o pão ou o peixe seriam “adquiridos” através de uma pequena oferta de no mínimo 50 dracmas e quem comesse o tal pão ou peixe milagrosos seria curado de suas enfermidades. (Jo 6:1-15)

Se Jesus fosse neopentecostal, ele até teria expulsado os cambistas e os que vendiam pombas no templo, mas permaneceria com o comércio, desta vez sob sua gerência. (Mt 21:12-13)

Se Jesus fosse neopentecostal, nunca teria tido para carregarmos nossa cruz, perdermos nossa vida para ganhá-la, mas teria dito que nascemos para vencer e que fazemos parte da geração de conquistadores, e que todos somos predestinados para o sucesso. E no final gritaria: receeeeeeebaaaaaa! (Lc 9:23)

Se Jesus fosse neopentecostal, ele teria sim onde recostar sua cabeça e moraria no bairro onde estavam localizados os palácios mais chiques e teria um castelo de verão no Egito. (Mt 8:20)

Se Jesus fosse neopentecostal, Zaqueu não teria devolvido o que roubou, mas teria doado seu ao ministério. (Lc 19:1-10)

Se Jesus fosse neopentecostal, não pregaria nas sinagogas, mas na recém fundada Igreja de Cristo, e Judas ao traí-lo não se mataria, mas abriria a Igreja de Cristo Renovada.

Se Jesus fosse neopentecostal, não diria que no mundo teríamos aflições, mas diria que teríamos sucesso, honra, vitória, sucesso, riquezas, sucesso, prosperidade, honra…. (Jo 16:33)

Se Jesus fosse neopentecostal, ele seria amigo de Pôncio Pilatos, apoiaria Herodes e só falaria o que os fariseus quisessem ouvir.

Certamente, Se Jesus fosse neopentecostal, não sofreria tanto nem morreria por mim nem por você… Ele estaria preocupado com outras coisas. Ainda bem que não era.

Se Jesus fosse neopentecostal, não teria prendido satan, mas pisado na cabeça dele por mil anos com sapato de fogo

Fonte: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=14452493&tid=5637281225318380538&na=1&nst=1

Comentário da Estrangeira:

Se Jesus, em sua vinda, agiu totalmente contrário aos ensinamentos de denominações neopentecostais, essas igrejas e lideranças têm ensinado heresias, e inclusive arrecadado milhões com a desculpa de “evangelizarem em nome de Jesus”. Porém, Jesus dizia que quem O seguia fazia as mesmas obras que Ele, e que muitos que diziam Senhor, Senhor! não entrarão no Reino dos Céus.

Isso é muito grave!!!

Significa que muitos que se dizem cristãos não o são de verdade, por aceitarem ensinos contrários aos de Cristo. Pensam serem salvos, mas estão seguindo os ensinos do evangelho de Mamom, o evangelho do entesouramento de riquezas e sucesso aqui na terra. Isso significa que muitos, até com o coração puro, estão financiando ministérios que, no final, levarão muitos à perdição eterna.

Citar o nome de Jesus não significa pregar a Jesus Cristo, o Filho de Deus. O verdadeiro seguidor de Cristo faz e ensina aquilo que Ele fazia. Jesus nunca buscou riquezas ou sucesso pessoal, dava a outra face, cuidava dos órfãos e das viúvas e de todos os que se chegavam a Ele.

Infelizmente, vivemos num momento em que a igreja se irmanou com o mundo, e por isso busca suas ferramentas e seu conforto. A igreja, em boa parte, se conformou com o mundo, negando o ensino do apóstolo Paulo (Rm 12.2), ao invés de ser sal e luz, de dar gosto e iluminá-lo. Por isso, muitos olham a igreja, no geral, como algo corrupto e que busca apenas seus próprios interesses, tornando ainda mais difícil a aproximação dos incrédulos.

Está na hora dos de coração puro abrirem seus olhos para essa triste realidade espiritual: a de que, em nome de Jesus, muitos estão sendo enganados.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Distorção neopentecostal


Os planos, projetos e ações no meio eclesiástico como evangelismo, célula, culto de milagres, culto de jovens, culto da família, noite disso, grupo daquilo, corrente da vitória, corredor do sal, lençol sagrado; do mais simples ao mais bizarro, tudo isso é fundamentado em cima do medo e não da confiança em Deus e no que Ele pode fazer.

Cargos, cursos, responsabilidades, decoreba doutrinaria, bíblica, é tudo por acharem que eles mesmos podem realizar algo; “dar frutos”, “muitos frutos”, isso é dar frutos para uma instituição, para seu sustento e não tem nada a ver com a salvação de vidas, já que isso só o Espírito Santo pode fazer, e também não tem nada a ver com os frutos do cristão que não se baseiam em algarismos, mas em consequencia de ter uma vida com Cristo.

É engraçado ver como a teologia da prosperidade distorce o evangelho, cega as pessoas e vende com facilidade a alma dos seus ministros por qualquer sopro pós-moderno de unção de doutrina.

Diego Marcell 10-04-10

terça-feira, 26 de abril de 2011

Entendendo a "Bênção de Toronto"



Augustus Nicodemus Lopes
(Artigo publicado originalmente na revista Ultimato, 1996)

No início de 1994 o mundo evangélico ficou agitado com as notícias de que um avivamento irrompera em uma das Igrejas do Vineyard Fellowship ("Comunhão da Videira") em Toronto, cidade importante do Canadá. Tratava-se da Toronto Airport Vineyard Fellowship ("Comunhão da Videira do Aeroporto de Toronto"), pastoreada pelo pastor John Arnott e sua esposa Carol, também pastora. Evangélicos aos milhares, especialmente pastores (segundo Arnott, mais de 30.000 pastores e líderes) vieram de várias partes do mundo para a Igreja do Aeroporto, para ver e receber a "bênção de Toronto", como ficou conhecido o movimento.
O que faz o movimento diferente do que acontece nas demais igrejas carismáticas do mundo é que ele afirma que Deus os tem visitado com um avivamento em que a presença do Pai torna-se tão intensa, e seu amor tão claramente revelado, que as pessoas são enchidas pela alegria do Espírito Santo, e reagem com gargalhadas, risos incontroláveis, chegando a cair no chão, a rolar de rir. Outras reações físicas mais conhecidas, como "cair no Espírito", tremores, gritos, etc. também estão presentes. Mas é a "gargalhada santa" que tem se tornado a principal característica deste movimento, apesar de que seus líderes sempre procuram dizer que o mais importante é a presença de Deus e as vidas transformadas.
A "bênção de Toronto" tem se espalhado pelas igrejas carismáticas pelo mundo afora. O Brasil não é exceção. As características do movimento já se fazem presente, inclusive em algumas igrejas locais das denominações históricas.
Como Tudo Começou
A antes desconhecida "Comunhão da Videira do Aeroporto de Toronto" começou a se tornar famosa quando John Arnott veio ser seu pastor. Arnott se converteu ainda adolescente numa cruzada de Billy Graham em 1955 no Canadá, e filiou-se a uma igreja Batista. Segundo suas próprias palavras, aprendeu com as igrejas Pentecostais de Toronto que "havia mais" do que era ensinado pela Igreja Batista.(1) Tornou-se membro de uma igreja Pentecostal, e posteriormente entrou no ministério na área de Toronto, em 1981. Casou-se com Carol, que também foi ordenada como pastora. Em 1993 começaram a pastorear a "Comunhão da Videira do Aeroporto de Toronto". O ministério de John Arnott e sua esposa era típico dos pastores de igrejas da "Terceira Onda": cura interior, batalha espiritual, libertação, expulsão de demônios, etc. Várias pessoas tiveram influência decisiva na vida e na formação teológica de Arnott. Ele reconhece entre elas a famosa Kathryn Kuhlman, o renomado pastor carismático Benny Hinn e, naturalmente, John Wimber.(2)
Em 1992 John e Carol Arnott foram a uma conferência de Benny Hinn em Toronto. Ambos se sentiam exaustos e secos no ministério. Sairam da conferência com o propósito de buscar da parte de Deus a "unção" que viram em Hinn (que nas conferências de Benny Hinn se manifesta especialmente pelas pessoas "cairem no Espírito"). Em Novembro de 1993, o casal Arnott foi à Argentina, conhecer o "avivamento" que estava acontecendo através de Claudio Freidzon, um líder das Assembléias de Deus naquele país. Numa das reuniões, John e Carol foram à frente, e Freidzon orou por eles. John caiu no chão. Quando se levantou, Freidzon lhe perguntou: "Você quer a unção?" John respondeu, "Quero, sim, quero de verdade". "Então, aqui está ela, receba-a", disse Freidzon, batendo com sua mão espalmada na mão aberta de John. E segundo John relata, naquele momento Deus lhe falou dizendo: "O que você está esperando? Por favor, receba-a, é sua!". E então ele recebeu a "unção" pela fé.(3)
Em Janeiro de 1994 John Arnott convidou Randy Clark, seu amigo e pastor de uma outra igreja Vineyard em Saint Louis, Missouri, nos Estados Unidos, para uma série de conferências. Ouçamos o testemunho do próprio Arnott sobre o que acontenceu:
No dia 20 de Janeiro de 1994 a bênção do Pai caiu sobre as cento e vinte pessoas que estavam presentes para o culto naquela quinta-feira à noite em nossa Igreja. Randy deu seu testemunho, e o período de ministério começou [o pastor e obreiros oram com imposição de mãos sobre os que vieram à frente em resposta ao apelo]. As pessoas cairam pelo chão debaixo do poder do Espírito, rindo e chorando. Tivemos que empilhar as cadeiras para termos espaço para todos. Alguns tiveram mesmo que ser carregados para fora.(4)
Arnott diz que a reação das pessoas naquela noite em cair no chão e rolar de rir, às gargalhadas, tomou-o e a Randy de surpresa, pois estavam esperando conversões e curas (além das quedas, naturalmente). A partir dai, em cada reunião da Igreja, durante o período de ministração, o fenômeno se repetiu: pessoas caindo de costas no chão (agarradas pelos "apanhadores", uma equipe que se posiciona atrás dos que vão à frente, para ajudá-los a cair sem se machucar), algumas explodindo em gargalhadas, literalmente rolando de rir no chão, outras ficando duras no chão, com os olhos fitando o vazio e as mãos estendidas para o alto. Outras, tremendo histericamente, outras gritando. Para John e Carol Arnott, a "unção" que tanto haviam buscado finalmente chegara — embora certamente de uma forma inesperada, sob a forma da "gargalhada sagrada", ou "riso santo". Arnott veio depois a batizar este comportamento como a "bênção do Pai", mas o nome que realmente pegou foi "a bênção de Toronto", nome dado por alguns jornalistas ingleses que vieram a Toronto observar o fenômeno.
Este tipo de comportamento dos que freqüentavam a Igreja do Aeroporto logo chamou a atenção do mundo evangélico, particularmente dos carismáticos, bem como da imprensa secular. A "bênção de Toronto" ocupou as primeiras páginas de jornais em alguns lugares ao redor do mundo. Cedo o local de reuniões que cabia cerca de 700 pessoas ficou pequeno para a quantidade de curiosos, e dos que queriam receber a "bênção", que vinham de todas as partes do mundo. Um novo local de reuniões comportando cerca de dois mil lugares foi preparado. Algumas linhas aéreas tiveram de dobrar o número de vôos para Toronto, e os hotéis da região passaram a promover pacotes especiais para os que vinham para as reuniões da Igreja do Aeroporto.
John Wimber, o líder da denominação A Videira, à qual pertencia então a Igreja do Aeroporto de Toronto, veio dos Estados Unidos a Toronto verificar in loco o que estava acontecendo. E voltou dizendo que o que estava ocorrendo lá, o riso santo, era obra de Deus.
Mas nem tudo era motivo de riso. Em 1995, um novo fenômeno começou a se repetir nas reuniões, que finalmente provocou o desligamento da Igreja de Arnott da Videira. Aconteceu enquanto Arnott estava ausente em conferências na Igreja Vineyard de Randy Clark, nos Estados Unidos. Um pastor chinês, líder das Igrejas chinesas cantonesas de Vancouver, Canadá, durante o período de ministração na Igreja do Aeroporto, começou a urrar como um leão. Arnott foi chamado às pressas de volta, para resolver o problema. A liderança que havia ficado à frente da Igreja lhe disse que entendiam que o comportamento bizarro do pastor chinês era do Espírito Santo.
Arnott entrevistou o pastor chinês diante da congregação durante uma reunião, e para surpresa de todos, ele caiu sobre as mãos e os pés, e começou a rugir como um leão na plataforma, engatinhando de um lado para o outro, e gritando "Deixem ir meu povo, deixem ir meu povo!". Ao voltar ao normal, o pastor explicou que durante anos seu povo tinha sido iludido pelo dragão, mas agora o leão de Judá haveria de libertá-los. A igreja irrompeu em gritos e aplausos de aprovação, e Arnott convenceu-se que aquilo vinha realmente do Espírito de Deus.(5)
A partir daí, os sons de animais passaram a fazer parte da "bênção de Toronto", embora, como Arnott insiste, não sejam muito freqüentes.(6) Há casos de pessoas rugindo como leão, cantando como galo, piando como a águia, mugindo como o boi, e gritando gritos de guerra como um guerreiro. Para Arnott, estes sons são "profecias encenadas", em que Deus fala uma palavra profética à Igreja através de sons de animais. Arnott passou a admitir e a defender este comportamento como parte do avivamento em andamento na Igreja do Aeroporto.
Mas John Wimber não se deixou persuadir pela argumentação da liderança da Igreja do Aeroporto de Toronto. Ao fim de 1995 foi dizer a Arnott que eles estavam desligados da Videira. A razão principal segundo Wimber é que não via base bíblica para profecia através de sons de animais emitidos por cristãos em êxtase. A igreja do Aeroporto de Toronto, entretanto, já havia ganhado popularidade suficiente para se manter sozinha. Na verdade, tornou-se o centro de um movimento que tem ganhado simpatizantes e aderentes de várias denominações pelo mundo afora.
Os Cultos na Igreja do Aeroporto
Em Agosto de 1996 eu estava no Canadá, e aproveitei a oportunidade para visitar a Igreja do Aeroporto de Toronto. O nome na placa já não tem mais "Videira". O nome agora é Toronto Airport Christian Fellowship ("Comunhão Cristã do Aeroporto de Toronto"). Fui para os cultos do domingo. A igreja se reune num local enorme, que é muito mais uma quadra poliesportiva coberta, com assentos para perto de duas mil pessoas. No culto do domingo de manhã havia entretanto menos de 800 pessoas, pelas minhas contas. E à noite, cerca de 600.
A ordem do culto é muito simples, e foi a mesma nos dois cultos.. Um período de louvor, que dura cerca de 45 minutos, seguido de avisos. Depois, testemunhos de pessoas que tem experimentado a "bênção". Depois, recolhe-se uma oferta, e segue-se a mensagem, em torno de 45 minutos. E depois vem o período de ministração, quando o pregador e os obreiros oram pelos que vêem à frente, querendo oração. Geralmente os músicos estão tocando, e os obreiros oram com imposição de mãos pelas pessoas, das quais a maioria "cai" para trás, e são aparadas imediatamente pelos "apanhadores". É durante este período enquanto estão deitadas no chão — que eles chamam de "descansar no Espírito" — que recebem visões, ouvem vozes (a voz de Deus, para eles), ou recebem uma "palavra de revelação".
No culto da manhã, um homem atrás de mim começou a falar em línguas. Outras pessoas simplesmente ficaram paradas, com as mãos estendidas para o alto. Uma mulher africana à minha frente começou a tremer incontrolavelmente, e finalmente abriu os braços como se fosse um pássaro gigantesco, e começou a emitir sons como se fosse uma águia. Vários gritos soaram de outra parte do auditório. Uma mulher gritou: "Cantem na minha casa como crianças, diz o Senhor". Ela repetiu esta "profecia" duas ou três vezes. O guitarrista começou a balbuciar, e logo as pessoas se juntaram a ele, produzindo um balbuciar conjunto, não muito alto. Gradualmente o som foi diminuindo, até que finalmente cessou.
O período de louvor à noite não foi diferente, com as mesmas manifestações: gritos, tremores, gesticulação estranha. Mas desta feita, foi seguido de um período de "ministério de cura". O dirigente profetizou que havia alguém no auditório que tinha um tumor, e que o Senhor estava revelando que queria curar aquela pessoa, que ela viesse à frente. Um bom grupo foi à frente, enquanto o guitarrista mantinha um ambiente elétrico e tenso variando em uma única nota da guitarra. A equipe de obreiros veio a frente, e os "apanhadores" se posicionaram atrás das pessoas. Quando a oração pela cura começou, vários cairam, outros começaram a gritar e a tremer. No auditório as pessoas levantavam as mãos, muitas pareciam em transe (como uma mulher ao meu lado). Uma mulher descalça corria e dançava no corredor lateral do local, com um véu branco na mão. A impressão geral que tive foi aquela referida pelo apóstolo Paulo, que se entrasse indoutos no culto dos Coríntios, diriam que estavam todos desequilibrados mental e emocionalmente!
No culto da noite, pregou um dos pastores da Igreja. Após a mensagem ele fez um apelo convidando à frente os que tinham desejo de receber oração. Creio que umas cem pessoas foram à frente. Ao ver a quantidade de pessoas, o pregador chamou todos os "apanhadores" disponíveis, para virem ajudar os que iriam cair. A equipe de obreiros veio à frente, e havia dois para cada pessoa: um na frente, para orar com imposição de mãos, e outro por detrás, para apanhar a pessoa quando caisse. Enquanto o pregador orava, os obreiros impunham as mãos e oravam também, às vezes pegando nas mãos da pessoa. Várias pessoas caiam de costas e eram sustentadas até ao chão, onde ficavam duras, aparentemente sem sentidos, ou tremendo, ou relaxadas. Outras permaneciam de pé.
Aproximei-me do centro da plataforma para observar melhor. Havia pessoas caídas pelo chão, umas imóveis, olhos fechados, outras tremendo, outras tentando se levantar sem conseguir. Outras pessoas que estavam em pé tremiam ou gesticulavam de forma estranha. Gritos e gemidos se ouviam. Uma mulher começou a chorar convulsivamente. Um moço começou a tremer e a gritar horrivelmente, e foi acudido por alguns obreiros. Uma mulher, que estivera correndo e dançando com um véu na mão estava caida no chão, o corpo enrijecido, os braços rígidos levantados para o céu.
A teologia do Movimento
Para John Arnott, o centro do movimento em sua igreja é uma nova apreensão do amor do Pai por parte dos cristãos. Conhecer o amor de Deus Pai e espalhá-lo é o lema do movimento. Neste contexto, não há muito espaço no movimento para se falar em culpa, juízo, pecado e castigo, e muito menos na ira de Deus. Procura-se criar um ambente em que as pessoas possam experimentar e expressar este amor de Deus com toda a liberdade - inclusive caindo no chão, tremendo, e gargalhando, reações que são vistas como um extravasar da alegria no Espírito que inunda a alma dos que foram alcançados.
Segundo Arnott, cada avivamento histórico teve uma ênfase característica. O avivamento pentecostal, no início do século, teve (e tem) como característica marcante a ênfase nos dons espirituais. A característica do avivamento de Toronto, segundo Arnott, é a ênfase no amor de Deus, e na alegria que ele produz na vida dos seus filhos.
Arnott está consciente de que coisas estranhas e bizarras estão acontecendo em sua enorme congregação. Mas ele tem várias justificativas para elas. Arnott procura mencionar textos das Escrituras para apoiar as reações físicas. Por exemplo, relatos bíblicos de como pessoas, diante da atividade extraordinária de Deus reagiram de forma incomum, caindo no chão, tremendo, perdendo as forças. Os casos preferidos são: Abraão (Gn 17.3), o povo diante do fogo de Deus (Lv 9.24), Saul (1 Sm 19:24-25), Ezequiel (Ez 1.28; 3.23), Daniel (Dn 10.7-8), os apóstolos no monte da transfiguração (Mt 17.6), e o apóstolo João na ilha de Patmos (Ap 1.17-18). Em todos estes casos, houve reações físicas diante da manifestação da presença de Deus, argumenta Arnott. Portanto, não se pode proibir que elas ocorram, quando Deus está presente.
Não somente isto, Arnott também cita exemplos dos avivamentos históricos, em que pessoas, durante os cultos públicos, igualmente cairam no chão, tremeram, entraram em transe, interromperam o pregador aos gritos, etc. Uma de suas citações prediletas é de um livro de Jonathan Edwards, onde o famoso puritano americano narra experiências de várias pessoas durante o avivamento ocorrido em Northampton, na Nova Inglaterra, no século XVIII. Algumas delas, narra Edwards, chegaram a cair durante a pregação da Palavra; outras, entraram em transe, e ainda outras prorromperam em gritos de angústia. Arnott também está a par de reações físicas durante a pregação de João Wesley e George Whitefield durante o Grande Avivamento na Inglaterra, no século XVIII. Citando estes exemplos, Arnott procura colocar a "bênção de Toronto" como sendo similar aos avivamentos históricos acontecidos no passado.
O ponto é que, para Arnott, não podemos limitar o Espírito, nem proibir reações à sua operação na vida dos crentes. Não sabemos como o Espírito opera, continua ele, e seria temerário colocar barreiras ao que parece ser a sua atuação. Para ele, o que está acontecendo no movimento nada mais é que a repetição de fenômenos religiosos acontecidos através da história da Igreja cristã, em épocas de grande intensidade espiritual; embora esteja pronto a admitir que pessoas imitando animais, como profecia encenada, é a contribuição singular da "bênção de Toronto".
Avaliação
Muitas pessoas ao redor do mundo têm dado testemunho de que têm sido abençoadas através do movimento da "bênção de Toronto". Um exemplo é o professor de teologia Clark Pinnock, que num recente (e polêmico) livro sobre o Espírito Santo reconhece seu débito para com o movimento.(7) No geral, estas pessoas testemunham de uma renovação em suas vidas do amor e da alegria cristãs, e de um compromisso maior com a vida cristã. Só podemos receber com alegria o crescimento destas pessoas na vida cristã.
Recomendamos também a ênfase do movimento no amor de Deus, e na necessidade da alegria na experiência cristã. Certamente precisamos mais e mais experimentar esta alegria, e dar testemunho ao mundo do gozo que temos em Cristo Jesus. Ao mesmo tempo, devemos cautelosamente indagar qual o preço que está sendo pago para isto, e se, ao final, vale a pena tomar este caminho para a renovação individual e da Igreja.
Por outro lado, a teologia de John Arnott é explicitamente influenciada por carismáticos como Benny Hinn, Howard Rodney-Brown, e Kathryn Kuhlman, e portanto, sofre das mesmas deficiências que caracterizam a teologia neo-pentecostal, como a abertura para revelações diretas que se tornam, ao lado da Bíblia, uma segunda regra de fé e prática. Some-se a isto a ênfase nas experiências pessoais, e a tendencia para receber como divino tudo que tem aparência do sobrenatural, sem o estabelecimento de critérios adequados que ajudem a fazer distinção entre o divino, humano, e demoníaco.
O movimento da "bênção de Toronto" faz parte do que tem sido chamado de reavivalismo moderno, em distinção aos avivamentos históricos dos séculos passados. Debaixo da influência de Charles Finney, os evangélicos do século passado até nossos dias passaram a ver avivamento como algo produzido diretamente pelo esforço organizado de igrejas ou denominações. Avivamento, dizem, é o resultado do emprego adequado dos métodos certos. Nesta moldura teológica, os que desejam avivamento empregam todos os meios possíveis para produzi-lo, em contraste ao espírito dos antigos, que consideravam avivamento como obra soberana de Deus, pela qual poderiam orar, mas jamais produzir.
Avivamentos genuinos são produzidos pelo Espírito Santo, mas historicamente nenhum deles tem sido totalmente livre de excessos, erros teológicos, atitudes carnais, e espírito faccioso, devido ao fato que eles ocorrem entre nós, pecadores. Em toda obra divina, Satanás vem colocar seu dedo, e promover a confusão -- para não falar da contribuição da nossa natureza corrompida. Por este motivo, durante períodos de intensa atividade religiosa e despertamento espiritual, pastores e líderes conscientes destes fatos quase sempre procuraram manter vigilância. A busca ansiosa e desesperada pela "unção", por avivamento, e pela manifestação do sobrenatural, acaba por abrir uma porta, pela qual fogo estranho pode entrar. Não é impossível que isto tenha ocorrido, em alguma medida, com os iniciadores do movimento de Toronto.
O que dizer do fato que a Igreja do Aeroporto de Toronto tem uma confissão de fé evangélica? Se por um lado isto nos tranqüiliza, por outro, traz imensa preocupações, pois o grande problema hoje com movimentos neopentecostais nascidos dentro do evangelicalismo não é que eles contradizem as doutrinas centrais da ortodoxia evangélica, mas sim que lhes dão lugar secundário, e que lhes acrescentam crenças e práticas, que não são fruto de estudo e interpretação bíblicos (como as doutrinas confessionais), mas de experiências e mesmo revelações. No fim das contas, a teologia e a prática acabam sendo controladas por experiências, visões, sonhos, e revelações através de profetas, coisa comum no dia a dia dos membros desta igreja, e de outras igrejas neopentecostais.
A justificativa apresentada para os fenômenos físicos não é convincente. Nos exemplos bíblicos citados por Arnott e outros líderes, as pessoas cairam prostradas sobre seus rostos, diante da manifestação extrarodinária da glória de Deus. Se Deus se manifestasse em nossos dias desta forma, esperaríamos reações semelhantes. Mas não é isto que ocorre no movimento. As pessoas começam a cair, rir, chorar, tremer, pular e imitar animais sem qualquer manifestação especial da glória de Deus. Em muitos casos, não há nem mesmo pregação! Ví pessoas tremendo e caindo já no período inicial de louvor.
A verdade é que não existe justificativa bíblica para "cair" no Espírito, rir no Espírito, e imitar sons de animais. Não lemos destas coisas ocorrendo com os crentes da Igreja apostólica, no livro de Atos, nem há qualquer referência a estas manifestações nas cartas escritas pelos apóstolos às comunidades do primeiro século. Se estas coisas acompanharam a Igreja apostólica, e eram para ocorrer através dos séculos na Igreja cristã, é estranhos que não há qualquer referência, orientação, ou instrução, da parte dos apóstolos a este respeito.
Fazer referência aos fenômenos físicos ocorridos nos reavivamentos históricos também não justifica. Aqueles fenômenos foram resultado do impacto da pregação profundamente bíblica, penetrante, quebrantadora, de homens como Wesley, Whitefield e Edwards. Não existe pregação deste tipo no movimento. Não se prega sobre a ira de Deus, o juizo final, os horrores do inferno, a culpa do pecado; em parte, era a pregação sobre estas coisas que levavam as pessoas a cairem prostradas, tal a angústia de seus corações, durante os cultos dos antigos avivamentos. Mas pregações sobre a santidade de Deus, sua ira, e o castigo dos impenitentes não é freqüente no movimento.
Além do mais, os principais líderes dos reavivamentos não encorajavam este tipo de coisas, e eram extremamente cautelosos quanto a comportamentos bizarros e estranhos. O que vemos na "bênção de Toronto" é o contrário, quando este comportamento estranho e anormal é abertamente encorajado por sua liderança.
Conclusão
Desejo concluir este artigo com algumas observações.
1) Não podemos rejeitar o movimento como sendo algo totalmente do diabo, embora igualmente não possamos descartar o ensino bíblico de que Satanás provoca falsas sensações e experiências religiosas. Existe suficiente Evangelho no movimento para garantir a atuação do Espírito Santo, mas a abertura para fenômenos físicos e novas revelações certamente garantem a possibilidade de falsas experiências, doutrinas e ênfases errôneas. Crentes genuinos que abraçam a experiência e ensinos de Toronto podem estar se expondo ao engano religioso, e suas conseqüências.
2) Embora não possamos negar a possibilidade da ocorrência de fenômenos físicos em resposta à uma obra intensa do Espírito, devemos recusá-los como evidência costumeira desta obra, devido, não somente à sua subjetividade, mas, especialmente, ao fato de que esta posição é biblicamente insustentável. As evidências da obra do Espírito na vida dos crentes e descrentes são descritas em abundância na Escritura, e enfatizam especialmente uma vida santa em obediência à Palavra. Reações físicas estão no geral ausentes. Crentes que experimentam estas reações, como cair, tremer, ficar duro, emitir sons animais, e as consideram como resultado da operação do Espírito em suas vidas, podem estar trilhando o caminho perigoso da ilusão religiosa. Quando estas reações acabarem, serão tentados a reproduzi-las por si próprios.
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Notas
1John G. Arnott, The Father's Blessing (Florida: Creation House, 1995) 5.
2Ibid.
3Ibid., 58.
4Ibid., 59.
5Ibid., 168-169.
6Ibid., 169, 183.
7Clark H. Pinnock, Flame of Love: A Theology of the Holy Spirit (Downers Grove, IL: Intervarsity Press, 1996) 250. É importante observar que Pinnock tem sido bastante criticado pelos evangélicos nos Estados Unidos pelas posições que abraçou neste livro, e em outros, com respeito à Trindade.

fonte

quinta-feira, 24 de março de 2011

O verdadeiro milagre


E sucedeu que, passados dias, o ribeiro se secou, porque não tinha havido chuva na terra. Então veio a ele a palavra do SENHOR, dizendo: Levanta-te, e vai para Sarepta, que é de Sidom, e habita ali; eis que eu ordenei ali a uma mulher viúva que te sustente. Então ele se levantou, e foi a Sarepta; e, chegando à porta da cidade, eis que estava ali uma mulher viúva apanhando lenha; e ele a chamou, e lhe disse: Traze-me, peço-te, num vaso um pouco de água que beba. E, indo ela a trazê-la, ele a chamou e lhe disse: Traze-me agora também um bocado de pão na tua mão. Porém ela disse: Vive o SENHOR teu Deus, que nem um bolo tenho, senão somente um punhado de farinha numa panela, e um pouco de azeite numa botija; e vês aqui apanhei dois cavacos, e vou prepará-lo para mim e para o meu filho, para que o comamos, e morramos.
E Elias lhe disse: Não temas; vai, faze conforme à tua palavra; porém faze dele primeiro para mim um bolo pequeno, e traze-mo aqui; depois farás para ti e para teu filho. Porque assim diz o SENHOR Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o SENHOR dê chuva sobre a terra. E ela foi e fez conforme a palavra de Elias; e assim comeu ela, e ele, e a sua casa muitos dias.
Da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou; conforme a palavra do SENHOR, que ele falara pelo ministério de Elias. (I Reis 17. 7-16 Bíblia Hábil)

Esta é uma humana revelação da atitude divina ante os seus filhos.

O que tem mais valor? Ver um milagre extraordinário, maravilhoso aos olhos, espantoso? Mas que amanhã não suprirá sua necessidade diária, um pão multiplicado hoje, extravagantemente claro aos olhos, mas que a sua falta irá te fazer passar fome amanhã? Ou o milagre do suprimento cotidiano, o milagre imperceptível da sustentação diária?

As pessoas, principalmente os que se dizem “pentecostais”, não percebem este detalhe, assim como o povo não percebia que no êxodo eles tinham suas necessidades básicas alcançadas diariamente, mas o povo quer determinar um milagre que não exija dele esforço algum para conquistá-lo, o povo quer ver chuva de canivete, chuva de casa própria, chuva de emprego, sem se capacitar para tal.

Deus quer ensinar que o maior milagre é imperceptível a pessoas fúteis, mas valorizado por pessoas dignas que percebem no dia a dia, nas coisas simples da vida a poderosa mão de Deus, essas pessoas jamais exigirão dEle, jamais se indignarão e jamais se frustrarão com Deus, pois sabem que Ele trabalha de forma natural e soberana na regência do Universo. Que a sua atuação é um ciclo gradativo de acontecimentos que cooperam para o bem dos que O temem. Que Ele não interfere na ordem natural das coisas, mas faz da sua atuação e intervenção um processo dentro da ordem para um fim proveitoso. No milagre da vida Ele lança sua ação, dessa forma entende-se que nada se faz sem a sua vontade e atuação, diferente do ato esporádico e chamativo que tem mais a cara do diabo, que executa coisas maravilhosas aos olhos dos homens para chamar sua atenção e usá-los, mas que essas obras não evocam nenhum beneficio aos seres humanos, sendo apenas ilusão.

As coisas de Deus são naturais e duráveis, é executada em processos preparatórios ao ser e leva a fins benéficos que geram futuro.

Diego Marcell 21-10-10

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A nova moda entre os psiquiatras



Quando surge uma obra, uma idéia, uma novidade que seja, levando o amor de Deus ao mundo e popularizando a mensagem, logo chegam os fundamentalistas, donos das suas religiões, colocando listas de heresias, levando “luz” no engano, fazendo “apologética”, verbalizando com raiva em nome da “fé pura” o que eles chamam de “voz do capeta”! Mas quando me coloco a analisar estes “defensores do cristianismo”, tento ver neles alguma relevância no meio secular, tento avistar algum balsamo em suas atitudes, tento espremer algum gesto de Cristo de seus rompantes de santidade; e o que vejo?

Vejo a falta de sentido naquilo que fazem, amantes da instituição, idólatras de um Deus literariamente vivo na bíblia, mas morto no espírito.
Percebo que este evangeliquês está produzindo lunáticos que se reúnem para adquirir mais loucura e tomar injeções de demência e choques elétricos na psique. E doentes que buscam a igreja como seu hospital, acabam caindo nas mãos de médicos monstros que os aterrorizam semanalmente com seus dogmas neopentecostais.

Por que um homem se dispõe a criticar algum escritor, alguma obra cristã ou até mesmo secular, que demonstram decisões teológicos ou filosóficas do autor que não interferem no sentido geral ou na decisão histórica que faça a partir daí uma revolução no mundo, ou local; o que ganham com isso estes críticos? Que diferença iria fazer na vida de um outro possível? Que diferença faria para Deus? Assim como este meu texto uma simples manifestação desencadeada por aquilo que abomino, mas que por seu mal me deixa igual ao que me traz repulsa, graças a falta de reflexão filosófica e teológica destes que determinam heresias sobre conceitos que só o são pelo tempo de repetição desta mesma classe que carece de saber.

Pura metalinguagem é viver e aprender no ato carnal onde o espírito eleva-se para compreender as chances da vida de óticas múltiplas, algo inacessível para estes filhos de “pais na fé” que são os hierárquicos, os tricotomistas, os que enriquecem pregando prosperidade que só faz sentido se o pregador também é o devorador dos pobres fiéis. Ou o julgador da vida espiritual do outro e o jogador da vida de muitos, o que o faz um louco varrido deste universo sem sentido para Deus que é o da fuga da naturalidade em nome desta espiritualidade de quem já perdeu a conexão com o evangelho puro do Amor de Deus.

Pobres rígidos em suas andanças, não entendem a ironia, para eles alegria é palhaçada, não possuem papilas degustativas, apenas a mesmice da comodidade, da vidinha engaiolada, uma religião televisiva que os fornecem tudo em baixa qualidade, mas suprem suas necessidades animalescas como se fosse o alvo divino. Rastejam pelo ouro quando Jesus disse que este seria como o barro dos nossos calçados. Trocaram os valores e por conseqüência possuem seus valores teológicos distorcidos e os filosóficos longe de qualquer possibilidade de pensar a vida em sua magnitude.

Romper com sua loucura é loucura de Deus na sobriedade da teologia para se viver no caos como se habitasse na calmaria. Loucura dos homens é Adão caído, corrompido por seu próprio designo, mesmo que chame isto de deus. É preciso ser chamado de louco pelos loucos, ser expulso do hospício como se saísse da caverna arremessado pelos homens que foram usados por Deus da mesma forma que Ele usou o Faraó como instrumento da sua glória ante os judeus, para olhar de fora e ver a realidade e sentir na pele que louco não se assume por gostar de ver reflexos nas paredes, esta é sua principal diversão, querem ser Napoleão, brincar de Adão escondendo o fruto proibido, enquanto Jesus chorava pelos oprimidos, conversava com excluídos e não se importava com detalhes sem importância.

Diego Marcell 15-02-11

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O futuro emergente – reflexo brasileiro



Não podemos transformar um movimento natural, em um movimento fechado, institucional, dogmático ou dogmático às avessas. Um movimento que nasce como resposta a nova forma de pensamento não pode impelido pela velocidade deste novo mundo entrar em decadência anulando a visão aberta e necessária as localidades, generalizando-as pelas idéias de alguns “papas” do “movimento”, que sendo desta forma deixa de ser um movimento dentro da proposta para entrar em igualdade as ultrapassadas linhas cristãs do passado recente e mais antigo também. Digo isto por ter assistido um vídeo de John Piper no qual ele fala sobre a igreja emergente; entendo perfeitamente o que ele diz, apesar desta visão ainda estar um pouco avançada para nossa realidade brasileira que deve estar uns 10 anos atrás da americana, enquanto ainda colhemos os louros do neopentecostalismo da igreja Mundial do Sr. Santiago. Apesar de toda conexão da rede.

Mas que a nossa ainda novata e por isso pura igreja emergente não caia nas tentações universalistas que a religiosidade humana costuma implantar nos fiéis, mas que se readapte no país com uma teologia própria e ortodoxa e produza finalmente um pensamento teológico de destaque, que aprenda a pensar de forma independente dos padrões norte-americanos, para sair daqui um exemplo de relevância mundial que faça sentido tanto na catolicidade da Igreja, quanto na reflexão teológica para o pensamento pós-moderno, sendo cristianismo clássico como Dan Kimball nos ensina no seu livro A Igreja Emergente.

É preciso que a nossa mente esteja saudável para que a mensagem entre de forma correta e mantenha-se límpida para fluir pelas comunidades e pelo mundo.

É possível uma mutação, a forma que irá tomar se acontecer é impossível prever, mas devemos constantemente buscar uma renovação que faça sentido a atualidade e que traga respostas relevantes centradas na verdade que é Cristo sempre presente em diferentes épocas.

Diego Marcell 10-02-11

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Fuga da Realidade


Podem até me chamar de blasfemo, mas as "unções" descritas abaixo se encaixam num dos seguintes casos: a) manifestações meramente carnais; b) obras demoníacas. O Espírito Santo não tem nada a ver com isso. Leia esse texto na íntegra, faça sua análise e tire suas próprias conclusões. Se tiverem interesse, conversemos a esse respeito um pouco após esse post. Escândalo? Embriagados? Loucos?


Minha igreja é destas que tem cai-cai, estrebucho e chororô. Aos domingos, quando cai a unção, homens e mulheres, crianças e adolescentes, profissionais liberais, garis, prostitutas e doutores se misturam num carnaval maluco, sem máscaras e sem fantasia. Todos dançam e pulam; alguns desconjuntadamente; outros, como pipoca no óleo quente. Outros, ainda, movimentam-se como num balé new age bem elaborado, em que se perdem sozinhos em seu mundo de adoração, como se estivesse no seu próprio quarto. Alguns gritam – gritos viscerais, primais, enlouquecidos; outros balbuciam extasiados palavras sem sentido. Alguns apenas caem em êxtase, como se tocados por um dedo gigante, e outros ficam no chão, rindo e chorando por muito tempo.

É estranho estar no meio de tudo isto. Você se torna quase um espectador do teatro do absurdo. Por mais que se confronte com o inusitado, sempre se surpreende a cada nova pessoa tocada, a cada profissional circunspecto que de repente se vê no chão despido de qualquer vergonha na cara. No começo, era uma espécie de playcenter espiritual; queria-se reunião todos os dias, numa ânsia pelo toque sobrenatural. A unção se tornou melhor do que qualquer coisa, do que os bate-papos a que estávamos acostumados antigamente, do que as festas regadas a muita comida, que eram comuns no dia-a-dia da igreja. Queríamos a emoção de cair, de perder o controle, de sermos tomados por aquela coisa nova. Um amigo médico definiu o processo como a "cocaína espiritual". Cocaína da qual não se sai "deprê", mas que vicia igualmente. Cocaína que produzia cura.

Lembro-me de outro amigo, profissional respeitado na cidade, que por respeito acompanhava a mulher para a igreja anos a fio. Sincero, dizia abertamente que não era crente, sempre querendo se preservar o direito de dar umas pecadinhas sem culpa. Mas, um belo dia de unção, lá estava o sujeito no chão, rolando suas roupas de marca pelo piso sujo de um galpão. Por mais que eu quisesse me desligar da imagem dele e louvar no meu canto, não conseguia parar de olhar as reviravoltas que ele dava – ora como um capoeirista exímio, ora como um lagarto desengonçado. Toda a dureza e indiferença cínica daquele homem rompeu-se e deu lugar a um zelo intenso pelo Evangelho e confissões públicas inimagináveis.


Na época, deflagrou-se uma guerra entre os membros da denominação quando começamos a nos "viciar" naquela cocaína divina. Muitos não se conformavam com o novo modelo, e vociferavam que Deus não podia fazer coisas nem proporcionar tais manifestações. Eu, cá do meu canto, sabia que não podia decidir as coisas que Deus pode ou não fazer – primeiro, porque sou mineira, assim como disse o caboclo depois que viu o sexto elefante cor de rosa voando por cima da cabeça: "É, cumpadi, parece que o ninho deles é pra lá mermo..." O Deus que falou em coluna de fogo, que apareceu em nuvem, que derrubou muralha com buzina, que abriu e fechou mares e rios, pode continuar fazendo o que bem entende. Um Deus que, na forma de homem, curou cego cuspindo no chão, andou em cima d'água, pescou peixe com moeda na barriga, morreu na cruz e ressucitou de maneira espetacular, pode continuar fazendo o que bem entende.

Fiquei a observar os resultados. Sei que a indiferença generalizada que reinava na igreja antigamente virou entusiasmo. Sei que homens que antes passavam o tempo do culto a pensar em seus problemas ou a desnudar as mulheres com o olhar, hoje, tocados por uma compaixão estranha, choram como crianças e pregam o Evangelho com paixão. Sei que mulheres mal-amadas, endurecidas pela vida, de repente desabrocharam em flor, como a moça da janela de A Banda do Chico Buarque. No meio disso tudo, alguns de nós querem teologar em cima de experiências e desenvolvem toda uma filosofia da preservação da "unção" na igreja, carregada de proibições neuróticas e de culpa. Para se ter unção, não pode isto não pode aquilo; não pode roupa de uma determinada marca, não pode música de ritmo afro; só o que é judeu é santo, o resto pertence ao diabo – que, aliás, acaba sendo um sujeito mais criativo que o próprio Deus, que não conseguiu inventar nada além daquelas musiquinhas judaicas em tom menor.

Assim, para ter unção, dizem que o crente precisa viver fora do mundo e outras bobagens mais. E quem olha de fora, ou seja, os acadêmicos da religião, tenta racionalizar e entender cada detalhe, revestindo-se de preconceitos histórico-teológicos. Apesar de cristãos, são mais céticos do que os incrédulos. Do meu canto, observo uma mulher de vida difícil levantar-se do banco ir ao altar pela primeira vez, querendo ver a Jesus e sendo tocada por uma mão sobrenatural de amor que a faz chorar e rir durante horas. Naquele choro, sua alma é lavada, suas culpas freudianas são extirpadas, sua sensação de miséria interna se torna em valor precioso. E ela levanta dali numa inteireza que duzentas horas de sermão não produziriam.

Edgar Morin, grande filósofo da educação, fala sobre cegueiras paradigmáticas. Segundo ele, "um paradigma pode, ao mesmo tempo, elucidar e cegar, revelar e ocultar. É no seu seio que se esconde o problema-chave do jogo da verdade e do erro". Ou seja, por ficarmos viciados num tipo de paradigma lógico, não conseguimos pensar fora dele, nem muitas vezes analisar coerentemente fatos do mundo ao nosso redor. No entanto, não somos capazes de perceber esse erro porque estamos presos na falsa lógica produzida pelos axiomas em que acreditamos.

O mundo protestante do Brasil hoje apresenta dois paradigmas principais – o dos experiencialistas, para os quais a experiência é tudo, o centro, a verdadeira razão de ser do Evangelho; e o dos racionalistas, que apesar de não admitirem abertamente, excluem a experiência do escopo de sua fé. Estes controlam o que é possível e racional no âmbito "espiritual", discriminam experiências e vivências de acordo com sua própria concepção do que é ou não racional. Ambos sofrem de cegueira paradigmática. O grupo de cá, voltado para o supremo poder da experiência mística, cega-se para os desatinos que o "império dos sentidos" produz, e infelizmente ignora o leme racional da Palavra. Assim, anda à deriva, movido por ventos de doutrinas, medos legalistas e arroubos personalistas.


O grupo de lá, conservador e racional, primando pelo amor à Palavra, ignora o lado místico da fé, sem o qual a própria fé deixa de ter sentido. Perde a oportunidade de experimentar o mover legítimo e curativo de Deus, o derramar do Espírito Santo que foge à nossa capacidade racional de explicá-lo, ultrapassa nossos limites religiosos e alcança almas e corpos com curas e prazeres que nossa teologia casta e asséptica não é capaz de gerar. Do mesmo modo que o grupo experiencialista exclui toda lógica – e, muitas vezes, todo parâmetro bíblico de sua fé –, o lado metafísico de Deus se torna ausente da lógica viciada da teologia racionalista.

A verdade é que caráter nunca será ministrado por imposição de mãos. A unção nunca substituirá a cruz a ser carregada ao longo de nossa jornada, gerando o verdadeiro cristianismo. A educação e o entendimento da Palavra nunca poderão ser relegados ao segundo plano; nossas mentes devem ser lavadas e transformadas pelas Escrituras, sem a qual a revelação nem existe. Mas ainda assim, a brisa suave do noivo está passando – e, quando ele passa, nosso coração amolece e nossos olhos querem chorar. Ele me ama, e eu sinto isto. É bom adorar por horas seguidas, sem olhar o relógio, e sentir-se limpo, perdoado e próximo do Senhor. É bom saber que Deus é concretamente e transcendentemente eficiente e poderoso para curar corpos, almas, dores, mágoas e teologias... E não há prazer maior que este.

Encontrado no blog do Web Evangelista

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Observador do seu tempo - Walter McAlister




Durante muitos anos, a voz de sotaque inconfundível foi familiar aos crentes brasileiros: “Que Deus os abençoe rica e abundantamente”, dizia o fundador da Igreja Pentecostal de Nova Vida pelas ondas da Rádio Relógio Federal. O missionário canadense Robert McAlister, carinhosamente conhecido no Brasil como bispo Roberto, teve papel destacado na inserção do Evangelho entre as classes médias urbanas. A denominação que fundou ajudou a mudar o conceito da sociedade acerca dos evangélicos – e, passados dezesseis anos de sua morte, seu legado é incontestável. “Ele deixou um exemplo de seriedade e valorizou a vocação pastoral”, diz, com orgulho, seu filho e sucessor no ministério, Walter McAlister Jr.

Mas os tempos e a Igreja Evangélica são outros. E Walter, mais do que ocupar o púlpito que um dia foi de Roberto, hoje é um analista do segmento no qual nasceu, cresceu e construiu sua carreira ministerial. Aos 53 anos, o bispo está lançando O fim de uma era(Anno Domini), livro no qual fala como observador e participante ativo do movimento evangélico nacional, com todas as suas facetas, crises e paradoxos. Mas a experiência própria não é a única credencial que ostenta – Walter, nascido nos Estados Unidos e naturalizado brasileiro, tem uma sólida formação acadêmica e teológica, que inclui os cursos de graduação e mestrado em disciplinas como psicologia e estudos bíblicos na América do Norte. Ordenado ministro do Evangelho em 1980, ele hoje é o bispo primaz e presidente do Colégio dos Bispos da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida, entidade que agrega 140 congregações.
O quadro que emerge de seu livro não é animador. Walter prevê o fim da Igreja – não o corpo místico de Cristo, que segundo ele “nunca falirá”, mas o atual conceito de igreja no Brasil. “A Igreja Evangélica hoje não cresce, incha. A diferença é que um corpo, quando cresce, mostra saúde; já o inchaço é sintoma de alguma doença”, aponta. Como outros indícios desse mal, o bispo aponta a superficialidade, o mundanismo, a falta de ética e a corrupção. “Aliás, no que tange à corrupção do mundo secular, ela em pouco difere da que se alastra nos meios cristãos”, lamenta. Durante esta conversa com CRISTIANISMO HOJE, Walter McAlister admitiu que lhe dói o coração ver a situação da Igreja contemporânea: “Queria ser mais gentil. Mas há momentos em que se faz necessário e urgente dizer a verdade dura, mesmo que isso nos custe muito.”

CRISTIANISMO HOJE – Em O fim de uma era, o senhor analisa a Igreja contemporânea, e o quadro que traça não é nada animador. Trata-se de uma instituição falida?
WALTER MCALISTER – Não, a Igreja nunca falirá. Ela é o corpo de Cristo e consegue sempre atravessar os séculos, mesmo que seja por meio de um remanescente fiel. Mas O fim de uma era trata do conceito atual de igreja no Brasil, e este sim, está prestes a falir. Ela está à beira de uma série de mudanças que serão percebidas como o fim, se não da Igreja como um todo, certamente de um “sonho” ou de um ideal que hoje ocupa o imaginário cristão.

No livro, o senhor chega a falar até mesmo do fim do atual modelo de cristianismo ocidental. Caso esteja certo em seu prognóstico, o que virá depois dele?
Historicamente, o que geralmente se segue a épocas como a nossa é um período de perdas, perseguições e desencanto. Os que se preparam para tais épocas promovem reflexão, semeando para uma nova era de vigor e devoção. Em primeira instância, haverá muito choro, revolta e medo. Haverá quem vá perguntar o que deu errado e os que se calarão, pasmos pelas perdas. Muitos fugirão dos líderes desacreditados. As coisas podem piorar ainda mais. Mas há sempre a possibilidade de renovação em meio aos escombros. O remanescente fiel se voltará para Deus em oração. Haverá redutos de oração intercessória, contrição e comunhão.

Alguns demógrafos preveem que os crentes poderão ser metade da população nacional já por volta da década de 20 deste século. Poucas nações do mundo experimentaram avanço tão notável de um segmento religioso na história contemporânea, fato que é muito festejado por líderes evangélicos – e criticado por outros tantos, que não têm enxergado qualquer mudança significativa na sociedade a partir dessa maior presença evangélica. É um paradoxo?
A Igreja Evangélica no Brasil hoje não cresce, incha. A diferença é que um corpo, quando cresce, mostra saúde; já o inchaço é sintoma de alguma doença. A qualidade da nossa devoção coletiva caiu muito, embora os nossos números tenham crescido. Os que não veem mudança estão equivocados. Mudou muita coisa, sim. No livro, mostro que tanto a sociedade quanto a Igreja Evangélica visível se tornaram mais superficiais, mais fascinadas pelos meios, mais gananciosas – e ficaram menos éticas e menos sérias. Aliás, no que tange à corrupção do mundo secular, ela em pouco difere da corrupção que se alastra nos meios cristãos.

Cada vez mais pessoas famosas, como artistas e celebridades, têm frequentado igrejas, mas essa alegada conversão parece não interferir em seu comportamento. Qual o preço disso para a fé evangélica?
A fé foi banalizada e transformada numa filosofia vazia. Em grande parte, a Igreja perdeu a sua alma. O fato de celebridades afirmarem conversão sem o necessário fruto de arrependimento é o resultado direto, e mais visível, de uma distorção da mensagem cristã. Afirmar que uma profissão pública de fé é o suficiente para que alguém se considere salvo reduz o conceito da salvação a um momento de decisão apenas. Mas Tiago disse que fé sem obras é morta. Muitos chegarão a Cristo, no último dia, fazendo uma “profissão” de fé. Mas obterão uma resposta condenatória, por eles terem praticado o mal. Paulo disse que o justo viverá pela fé, mas também disse que haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça, conforme Romanos 2.7 e 8.

O senhor aponta os líderes evangélicos como grandes responsáveis pela crise da Igreja. Qual a sua avaliação sobre a liderança evangélica brasileira?
A liderança evangélica brasileira reúne de tudo um pouco. Ocupamos um espectro largo, que vai dos mais corruptos e hipócritas aos mais piedosos e angustiados com a situação atual. Há homens muito bons no Brasil que querem servir ao Senhor, mas são pressionados, qual Arão, a fabricar bezerros de ouro para agradar o povo e garantir, por exemplo, uma reeleição a seu posto. Mas também há lideres que vendem seus púlpitos a agendas políticas, ou pior, traem sua vocação sacerdotal se candidatando pessoalmente a cargos eletivos. Há mercantilistas que usam o Evangelho como desculpa para vender seus produtos na TV, enriquecer ou obter benesses de poderosos. Para eles, a Bíblia é um pretexto e não uma autoridade. São pessoas equivocadas ou corruptas, que criam igrejas vaidosas, vazias e superficiais. Por outro lado, há homens que se dedicam, de corpo e alma, ao serviço do povo de Deus. Não são famosos, mas estão dando sua vida em prol do rebanho do Senhor.

Por que a Igreja contemporânea tem abandonado temas antes considerados inegociáveis, como arrependimento, justificação pela fé, juízo de Deus, céu e inferno e segunda vinda de Cristo?
Porque essas não são mensagens populares. Elas incomodam aqueles que procuram na fé apenas um meio de alcançar bem estar. Somos uma civilização narcisista, uma sociedade que define o mundo a partir da sua própria vontade. Como já aconteceu inúmeras vezes ao longo da história da Igreja, a proclamação do Evangelho hoje rende-se muitas vezes às questões do dia a dia, da moda ou dos anseios da sua geração.

E quanto aos assuntos básicos da fé e da prática evangélica, como batismo, liturgia e pecado? Na sua opinião, as igrejas têm falhado no ensino?
A Igreja sofre, de modo geral, de um analfabetismo bíblico e teológico, bem como uma miopia histórica surpreendente. Pelo nível de ignorância bíblica que percebo na maioria dos cristãos, associado à ausência de piedade demonstrada pelo povo de Deus, eu diria que alguém está deixando a dever. Esse problema não acha sua fonte no rebanho, mas nos pastores. É bom lembrar que foram os líderes das sete igrejas do Apocalipse que foram cobrados pela condição dos rebanhos.

Evangélicos sempre criticaram católicos por suas concessões à religiosidade popular e às superstições religiosas. A Igreja Evangélica brasileira pratica hoje uma fé sincrética?
Sem dúvida! No que diz respeito à religiosidade popular, já ultrapassamos os católicos. Aliás, de uns tempos para cá, os católicos até estão copiando as nossas práticas populares.

É possível falar-se em unidade do Corpo de Cristo diante da infinidade de igrejas e denominações que existem hoje?
A unidade do Corpo de Cristo não é um projeto, é um fato. Ao mesmo tempo, Paulo disse que é necessário que haja divisões entre nós para que os aprovados sejam conhecidos, conforme I Coríntios 11. Logisticamente, a união institucional é impossível; sempre foi assim, desde a Igreja do primeiro século, com todas as suas divergências e ramificações. Todavia, há uma só Igreja. Quem a vislumbra como um todo vê algo estranhamente animador: há membros da Igreja invisível atuando em todos os arraiais. Há pessoas piedosas, devotadas a Cristo, com todos os seus defeitos, erros de doutrina e diferenças, que estão contribuindo para o crescimento do Reino de Deus.

Por que a evangelização clássica, aquela da visitação a lares e hospitais, dos cultos ao ar livre e do evangelismo pessoal, foi abandonada pelas igrejas?
Bem, não estou ciente de tal abandono. Há ainda muitas igrejas que visitam lares e realizam evangelismo em hospitais ou prisões. Acontece que a comunicação vem sofrendo uma revolução incrível. Talvez, no caso de cultos ao ar livre, eles tenham sido substituídos por novas formas de proclamação. Mas concordo que não há o mesmo zelo por almas perdidas que vi quando jovem. Talvez tenhamos nos tornados frios e sem compaixão pelos que estão se perdendo. É um fato triste e denuncia o esfriamento do nosso amor, inclusive pelo Senhor.

Pode-se dizer que o neopentecostalismo é um movimento de fé genuinamente evangélico?
Antes de tudo, é fundamental aqui definirmos bem os termos evangélico e neopentecostal. Primeiro: o termo neopentecostalismo não é para mim um conceito cronológico, no sentido de um movimento que evoluiu com o passar do tempo a partir do pentecostalismo e que, por isso, configuraria uma nova etapa do pentecostalismo. Nada disso. Quando falo de neopentecostalismo, refiro-me a algo que evoluiu a partir da invasão de valores neoliberais e materialistas na periferia do antigo pentecostalismo. O que resultou dessa mutação é uma espiritualidade formada em função de valores e anseios seculares, mundanos.

O que deu certo e o que deu errado no neopentecostalismo brasileiro?
O que deu errado é que eles acabaram formando valores anticristãos e levam pessoas a segui-los. Nesse caso, expandir esse tipo de fé não é nenhum mérito – na verdade, é um problema. O que deu certo – e eu não diria que “deu certo”, mas que funcionou – para o neopentecostalismo foi atender certos anseios das massas, no que se refere aos desejos dessa geração, e oferecer soluções fáceis, como qualquer profissional de marketing faria. O povo se sente explorado, impotente e vitimado. Assim, a oferta de uma certa ilusão de poder adquirido é tudo o que o povo quer. Por isso, os neopentecostais crescem numa velocidade impressionante.

A fé como produto de consumo, onde a bênção está diretamente ligada à atitude do devoto diante da organização religiosa, é a ênfase na m´dia produzida pelos grupos evangélicos, particularmente na TV. É uma maneira legítima de divulgar a fé?
De forma alguma; é antibíblica, pois Deus fica em segundo plano, enquanto o cliente – o necessitado – fica em primeiro. Em vez de pregar submissão a Deus e confiança na sua vontade, que pode até se manifestar por meio de cura ou resposta a oração, vemos o benefício proclamado como o bem principal. Isso é idolatria. Além do que, a televisão em si é um meio comprometido e incapaz de formar conceitos cristãos. A presença de pastores na televisão é equívoco. Um equívoco bem-intencionado, mas ainda assim um equívoco.

A Igreja Cristã Nova Vida é neopentecostal?
Não a considero neopentecostal, como muitos a classificam, pois ela nem de longe compactua com esses valores e anseios. Somos “neo” por termos sido fundados há pouco tempo, em termos históricos, e somos “pentecostais” por crermos na continuidade dos dons manifestados no dia de Pentecostes. Mas não somos neopentecostais, pois rejeitamos essa espiritualidade mundana e todas as suas práticas. Na verdade, as origens da Igreja Cristã Nova Vida se reportam à Rua Azuza, em Los Angeles, em 1906. Meu tio-bisavô, R.E. McAlister, levou a mensagem pentecostal de lá para o Canadá, onde ajudou a fundar as Assembleias de Deus canadenses. Seu sobrinho, Walter – meu avô –, foi superintendente nacional durante os anos 50 e o filho dele, Robert, foi o nosso fundador. Fomos fundados, então, em cima dos firmes alicerces de Azuza e não de movimentos análogos posteriores. Assim, meu pai não “brotou” no Brasil com uma nova teologia inventada; ele deu continuidade à teologia clássica que vinha se desenvolvendo em seu país desde o avivamento de Azuza.

Seu pai, carinhosamente chamado pelos crentes brasileiros de bispo Roberto, teve participação direta na explosão do neopentecostalismo. Diversos líderes dessa corrente – Edir Macedo, fundador da Igreja Universal; Romildo Soares, que deu origem à Igreja da Graça; e Miguel Ângelo, da Cristo Vive – são oriundos da Igreja de Nova Vida e foram seguidores de Roberto. Olhando agora em perspectiva, como o senhor avalia este legado? Acha que o bispo McAlister cometeu equívocos em sua trajetória ministerial?
Todos cometem equívocos. Mas qualquer pessoa com um mínimo de informações não estereotipadas e superficiais sobre o bispo Roberto sabe que não se pode atribuir as práticas neopentecostais negativas aos equívocos do meu pai. Veja que muitos ex-católicos fundaram seminários evangélicos conceituados, mas ninguém aponta o papa como pai desses seminários. Ora, do mesmo modo, é um equívoco apontar meu pai como ligado diretamente a esses movimentos. O fato de a Nova Vida ter sido o lugar onde esses líderes começaram sua jornada cristã não faz de meu pai seu mentor. Basta ler seus livros, como O encontro real, Dinheiro – Um assunto altamente espiritual e Bem-vindo ao Reino de Deus, entre outros, para perceber que, mais de trinta anos atrás, ele já denunciava como negativas as práticas que depois se tornariam tão conhecidas e associadas ao mundo neopentecostal.

Por que a Nova Vida dividiu-se em duas correntes?
Porque houve quem não concordasse com a direção que dei à denominação após a morte de meu pai. Houve ainda quem vislumbrasse outro para sucedê-lo como primaz. Eles estavam no seu direito de achar isso.

Isso não foi resultado da descentralização administrativa, já que cada igreja local recebeu autonomia?
Bem, vamos considerar que ajuntamento de facções não constitui união. Ao darmos independência, cada um pôde escolher pertencer ou não. A união tornou-se muito mais legítima, uma vez que passou a ser uma questão do coração e não de um nome em comum apenas. A Igreja Cristã Nova Vida é uma associação voluntária de igrejas independentes, que afirmam o bispo primaz como o seu pastor. Mas cada pastor opta livremente por seguir minha liderança, que é pastoral em palavra e exemplo. Os líderes que não desejam continuar a andar conosco estão perfeitamente livres para sair, sem perder pensão ou plano de saúde, nem tampouco a sua igreja. A minha atuação, assim como a do Colégio de Bispos, funciona como numa igreja local – só que os nossos membros são ministros ordenados. Nós velamos pelo bem estar de cada pastor, pela ética, pela harmonia doutrinária e pela transparência e a responsabilidade fiscal. Os que desejam andar conosco empenham sua palavra de viver dentro desses parâmetros, afirmados anualmente na assinatura da Aliança das Igrejas Cristãs Nova Vida.

Uma reunificação das diferentes vertentes hoje faria sentido?
Isso não me parece plausível. Uma reunificação teria de passar pelas mesmas questões que nos separaram desde o início. Hoje existem muitas “Novas Vidas”, igrejas que saíram de nós e de algum modo mantêm o, digamos, sobrenome por se reportarem ao bispo Roberto como fundador. Não há planos para reunificá-las. Acho que seria como querer transformar o português, o espanhol e o francês novamente em latim. Muito tempo passou, doutrinas foram reavaliadas, posturas foram firmadas e cada linha de atuação acabou por se distanciar das outras. Embora tenhamos esse mesmo sobrenome, somos igrejas realmente diferentes.

As diferenças entre igrejas tradicionais e pentecostais já não têm a mesma diferença de outros tempos. É como se houvesse uma terceira via teológica, misturando as características dos dois grupos. O senhor acha isso bom ou ruim?
Para responder, é preciso analisar caso a caso. Há igrejas tradicionais que realizam cultos nos moldes neopentecostais. Não creio que isso seja benéfico. Pelo contrario, é um modus operandiesquizofrênico, pois nos cultos tradicionais essas pessoas abraçam as máximas da tradição, mas em determinados momentos abandonam essas máximas para desfrutar de métodos neopentecostais. Por outro lado, há pentecostais que estão se reavaliando. E, consequentemente, buscando trazer do passado práticas e noções bíblicas e benéficas que claramente foram perdidas durante a ruptura entre os tradicionais e os pentecostais, para não falar da ruptura que houve durante a Reforma Protestante. Concordo que houve uma mistura e creio que cada igreja seria muito bem servida pelos seus lideres se voltasse a valorizar suas próprias origens. Afinal, uma tradição não é uma prisão, e sim um lar.

O senhor diz em seu livro que se sente solitário no ministério. Quais os reflexos dessa solidão na vida de um ministro do Evangelho?
Essa solidão nos remete ao silêncio e a uma reavaliação constante de motivações. Ou vivemos perante a face de Deus intencionalmente ou buscamos nos outros a justificação de nosso ministério e nossa vida. O primeiro é um caminho difícil, mas necessário. O segundo é vaidade e correr atrás do vento.

Por Carlos Fernandes, em Cristianismo Hoje

Fonte Iconoclastas

domingo, 5 de setembro de 2010

Uma triste historia




A história bíblica revela que sempre que o sistema se corrompe Deus então levanta profetas. É o caso dos profetas do antigo testamento, mas também é o que vemos na história da igreja cristã.
Por 3 anos fui membro de uma igreja em minha cidade, que passou por bons momentos quase avivalistas, ou pelo menos era a impressão que deixava; é óbvio que estava carregada de teologia da prosperidade, algo que nem conhecíamos na época, mas que vivíamos com naturalidade. A igreja do evangelho quadrangular não é uma igreja neo-pentecostal de origem, mas adquiriu totalmente as praticas da nova “teologia”, além de ser uma igreja altamente política, pois seus congressos são carregados de mensagens de defesa da instituição e de seus representantes nas áreas do governo, tanto municipais, estaduais e até nacionais.
Numa das famigeradas vigílias de sexta-feira, cheia de teatralidades espirituais, eu senti um extremo cansaço daquela liturgia forçada e fiz uma oração muito sincera dizendo que eu não queria mais saber de nada que viesse dos homens, mas que desejaria que fosse feita somente a vontade do Senhor. Compreendo hoje como uma oração instigada pelo próprio Espírito de Deus. Estavam todos como de costume na segunda metade da vigília, perto do altar de mãos dadas, ou em “manifestações variadas”, e eu sentado no banco, quando o pastor olha para mim e me chama, e manda um recado em nome de Deus, que eu sinto claramente como resposta a minha oração, (não acho que deva ser necessário expor aqui o que me foi dito, e creio sim que Deus usa quem Ele quer para falar, mesmo pessoas espiritualmente corrompidas).
Fui então para um famoso congresso da quadrangular, repleto de falsos profetas e políticos, algumas mensagens na época me agradaram, outras não; da igreja que freqüentávamos fomos apenas nós da minha família. O congresso era tão político que levaram o governador para dar uma “palavrinha”, e para não perder a chance num congresso com mais de 3000 pessoas lembrou a todos os presentes da “preciosa virgem Maria” em pleno congresso quadrangular.
Voltando de viagem, direto para as obrigadas reuniões de lideres de células (que eu participava apesar de ainda não ter me empolgado de freqüentar nenhuma célula, já que dês daquela época já não me agradavam todas aquelas regras e limites estipulados pelo sistema), senti uma leve soberba no ar e percebi que algo estranho estava acontecendo.
Para esclarecer, este pastor sempre foi muito gentil conosco, nunca nos agrediu com palavras, diferentemente de como fazia com 50% da igreja. Porém também raramente foi tomar um café em nosso lar, mesmo quando convidado. Quando aparecia no meu recinto de trabalho para tirar alguma cópia ou pedir algum dinheiro para pagar a conta de luz, sempre fugia rapidinho quando eu começava a fazer perguntas de cunho teológico que o deixava sem saída e sem resposta. Eu poderia fazer um capitulo dedicado somente a sua pessoa, mas não é meu objetivo, então vou prosseguir com o relato.
Eu e alguns irmãos tínhamos a idéia de montar um grupo para trabalhar com evangelismo, mas com reuniões fora da igreja, com uma proposta diferente. Algo mais intimista e reflexivo, para gerar uma comunhão verdadeira, já que no sistema atual da igreja isso é impossível. Fizemos umas 5 reuniões, avisamos o pastor, ele supostamente gostou da idéia, tanto que o mantivéssemos por dentro de tudo. Mas nesta época já havia algo estranho se manifestando, algumas mudanças no louvor, umas rixazinhas surgindo, um irmão recém chegado sendo escalado para cargos que não tinham nada a ver com ele, alguns jovens chegando à igreja, que logo foram assumindo um dos louvores... alguns mal entendimentos de comunicação de um irmão que infelizmente entrou de gaiato na história, começou a desencadear lentamente uma decadência. Mas tudo isso eram apenas sintomas de uma doença muito grave que já vinha se manifestando naquele corpo, só que ainda ninguém tinha conhecimento.
Fim de ano, muita gente já se mostrava infeliz com algumas atitudes do pastor. Muitos sinais revelam a má administração da vida de alguém que não pastoreia nem a própria casa, e que dessa forma não pode pastorear uma igreja. Não vou entrar no quesito da vida particular, posso apenas dizer que é uma vida familiar desregrada em todos os aspectos, e quando eu digo todos, são todos.
Junto daquela turma de jovens que agora faziam parte do louvor, um rapaz amigo deles começou a freqüentar os cultos, me informaram que o rapaz e sua família são de alguma seita ocultista, e eu notava que todo culto que o pastor fazia apelos para aceitar Jesus ele nunca ia para frente, mesmo incentivado pelos amigos. Também falavam que estes jovens passavam as noites jogando baralho, bebendo e fumando, se é verdade, nunca fui convidado para uma noitada destas para saber.
No mês de janeiro o pastor trouxe um pastor argentino que já havia vindo no ano anterior fazer umas campanhas, desta vez o pastor da igreja deixou o argentino em seu lugar para tirar umas férias.
O clima da igreja era muito estranho, além de mim havia uma turma achando que o pastor deveria ser mais humilde, coisa que ele já não vinha sendo a algum tempo, dês de quando começou a fazer faculdade de Direito, porém nos últimos meses sua posição estava insuportável, além do alto índice de ofertas aclamadas para a igreja. Existem muitos boatos em volta da questão financeira da igreja, mas como eu não posso provar nada, não vou entrar no assunto.
Eu já estava a algum tempo de saco cheio daquela igreja, ia esporadicamente aos cultos, o pastor argentino já havia feito uns 5 cultos mais ou menos quando resolvi ir ver o que estava acontecendo. Um frenesi enlouquecido, isso que eu presenciei, aspirantes a obreiros se maravilhavam com o profeta argentino, proferindo palavras sabias em portunhol, os olhos brilhavam; para mim, nada de anormal. Vinham me contar de promessas de restauração, que o argentino ia conversar seriamente com o pastor, que era necessário um concerto na igreja, e todos se deliciavam com o estrangeiro.
Chegando de viagem a bomba explode, muita coisa foi falada, muitas versões foram proferidas, algumas me parecem ter mais credibilidade que outras. A partir de uma suposta conversa com o argentino, o pastor não aceita as repreensões e o expulsa, a partir daquele momento começa uma interminável sequencia de cultos dedicados a denegrir e amaldiçoar o referido gringo, alguns dos dizimistas mais fortes da igreja vão embora, o pastor diz que o argentino está abrindo uma igreja, que induziu tudo, que capitaneou os mais abastados para si, para sua nova igreja... e coisas deste tipo para piores, exaustivamente ele repetia essas mentiras até que se tornassem verdade na cabeça dos que ficaram, e eu comecei a freqüentar mais seguidamente para ver se um dia acabava aquele papo todo, ele mesmo num dos cultos prometeu a mim que no próximo não falaria mais, mas não adiantou, na quinta, no domingo, lá estava ele mandando a igreja mandar maldições para a argentina, para a casa, a igreja e a vida do pastor de lá. Até que eu me cansei da palhaçada, vi que só ia piorar e abandonei de vez. Soube que continuou saindo gente, sempre os sérios, e até a data de hoje, quase oito meses depois, continua saindo gente daquele lugar. Mas o ponto que eu queria chegar está próximo.
Sempre que o sistema se corrompe, Deus levanta profetas.
Dizem que num dos cultos do pastor argentino (que eu não estava presente) ele disse a seguinte frase: “eu sou profeta, o pastor de vocês não.” Para quem prestou atenção pode ter ficado ressabiado com esta afirmação, eu quando soube, não fiquei.
Então no auge da sua estada no Brasil, ele que já havia deixado passar uma profecia na vez anterior; nesta vez dizia ele que queria esperar o pastor titular, mas no ultimo dia decidiu falar. Ele disse que havia um pacto de maçonaria no altar da igreja e que se não tomassem providencia em breve ela iria ruir. Claro que não foi na velocidade que o profeta pensava, mas na minha visão de como tudo se encaminha, a mensagem é verdadeira. Muitas outras visões anteriores pendiam para uma reparação de pequenos erros, mas aquele que anda no erro não vê o seu pecado; lembro-me de uma visão de alguém que mostrava a mão do pastor sem um anel, e o bizarro foi a interpretação do pastor de que era a mão de Deus que estava sobre a dele, por isso o anel não aparecia.
Os que temiam a Deus, o próprio Senhor os tirou da igreja, muitos de forma forçada, outros com naturalidade, levou cada um aonde Ele achava melhor, uns estão em transição, outros já estão fixados, mas evidentemente Deus está agindo. Os seres manipuláveis, a massa que vai para “receber bênçãos” continua lá dizendo “amém” a qualquer bobagem que o pastor profere, achando que aquilo é evangelho, que toda distorção que ele prega é a verdade e que o mundo fora daquelas paredes construídas pelo esforço daqueles que já não estão lá é que estão errados.
Um tempo depois descobri que além daquele menino que diziam ser do ocultismo ele também era membro do Demolay, e agora estava tocando no altar da igreja e um pouco depois assumiu o namoro com uma das filhas do pastor. Proteção total sobre o jovem satanista.
Lembro-me de uns dias antes de eu abandonar de vez aquela instituição, do pastor falar que o menino de quem estamos falando em uma vigília havia falado em línguas hebraicas, algo que jamais vi referencia na bíblia como se fosse algo espiritual, e como o pastor sabia que era hebraico? Bem que poderia ser aramaico, o que me lembrou os livros do Daniel Mastral, das vezes que ele lançava maldições em aramaico e os lideres religiosos ficavam admirados pensando que ele falava em línguas pelo poder do Espírito Santo.
Fato é que através de algumas falhas de caráter, pouca vigilância espiritual, e muita ignorância, arrogância e egocentrismo o mal entrou e implantou seu veneno, cegou dês do líder até as pobres ovelhas, a loucura está tomando conta de tudo e nem um pouco da obra de Deus está fazendo morada ali. Deus levantou um profeta, porém os falsos profetas que só profetizam bênçãos não quiseram nem saber e estão pensando apenas na prosperidade da teologia que impera na atualidade. Sugando a alma dos pobres, e matando o espírito das crianças com o sistema de células.
Conheço um rapaz que entrou na igreja em sua pior fase dês da sua fundação naquele bairro, fraco espiritualmente ele foi gravemente afetado pelas influencias malignas que regem aquele ambiente, hoje ele sofre de depressão, apresenta sintomas de desequilíbrio psicológico e não há cobertura alguma que o possa ajudar. Até uma psicóloga mulher de pastor o atendeu algumas vezes, este casal possui certo laço com o pastor que estamos abordando, porém esta psicóloga mandou o rapaz tomar remédios para depressão, pois disse que pode ser falta de alguma substancia no organismo dele. Temo que ela tenha sido atingida pelas forças malignas e pelo menos neste ambiente tenha sido cegada também. Se antes de entrar na igreja ele era um rapaz ligado e alegre, porque agora é falta de substancia no organismo? Claramente ele está sendo afetado por opressão maligna e não por um mero problema clinico.
Estou escrevendo isso apenas por um desabafo diante da falta de visão dos evangélicos frente ao mundo espiritual, pois me sinto muito triste em ver pessoas sendo corroídas por falhas humanas que apesar de falarem em nome de Deus não apresentam nem o mínimo necessário para testemunhar o que professam. Quando o poder recai sobre quem não possui estrutura para comandar um sistema frágil, e pronto a se corromper que é a instituição religiosa.
Este é um relato real de apenas uma igrejinha de uma cidade pequena, mas é um exemplo tanto para vermos que Deus levanta profetas quando necessário, quanto para vermos que a maioria não ouve os profetas de Deus quando eles falam, pois geralmente falam o que ninguém quer ouvir, diferente destes profetas que o Malafaia vem trazendo para o Brasil, que profetizam heresias, creio que o profeta argentino foi enviado por Deus.

Diego Marcell – 10/08/10

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A livre manifestação divina



Vemos como Deus se manifesta com plena disposição a todos que com verdade clamam por um renovo, por justiça, ou por amor. Através do gesto humano para o bem, glorificando a Deus o Espírito se faz presente movendo com poder e transformando situações.
Dês daquele dia de Pentecostes, a historia mostra a ação do Espírito de Cristo dentro do clamor daqueles que creram e crêem independente de clérigo ou autoridade humana. Agiu na igreja primitiva, depois com a institucionalização da igreja católica romana, nas divisões pré-medievais, e em grupos cristãos distantes e independentes o Espírito estava agindo, assim como nos reformadores, sempre segundo a ênfase direcionada pela época e situação o Espírito Santo esteve agindo, quando foi buscado baseado pelos relatos dos primórdios da igreja retratado em Atos, o Espírito agiu mais intensamente como aconteceu nas comunidades pentecostais e carismáticas, e ainda hoje, com os ares pouco cristãos das igrejas neo-pentecostais Ele ainda age trazendo conversão a corações sinceros que clamam por Cristo mesmo dentro destes lugares. O que deixa claro que jamais foi a instituição (que foi chamada de igreja) que interferiu ou que foi motivo da manifestação do Espírito, mas a predisposição daqueles que optaram por Ele, a simples atuação da chamada cristandade e não a instituição A, B, C..., onde quer que em seu nome os homens e mulheres estejam, ali Ele está, inclusive quando acontece dentro de instituições religiosas como no catolicismo romano, nas comunidades reformadas, pentecostais, ou outras.
Analisemos o erro: o erro está no pensamento de que se o Espírito está correspondendo ao chamado da comunidade atuante, seja ela então privilegiada ou superior a outras, o que acaba enquadrando a ação e até a salvação concedida por Jesus dentro de limites institucionais. Outro erro é a sistematização de formas e veículos para a ação do vento que sopra (o Espírito Santo). Também pode ocorrer da eleição ou auto-eleição de interpretes ou representantes do céu devido a algum nível de manifestação; entre outros aspectos inclusos nas limitações de quem é Criativo e não se limita a pensamentos humanos. Tudo isso gera idolatria direta ou indireta de artefatos que agora se tornam “sagrados” pelos homens. Tudo causado pela tentativa de uma religião perfeita fundada pelo esforço humano, onde a má compreensão e a ignorância do ser filosófico cristão não estão centrados na consciência daquele que pratica a Religião que deve ser perfeita, mas acaba acrescentando a ela adereços humanos, por isto imperfeitos, que acabam atrapalhando o puro relacionamento entre Deus e o homem.
A conclusão é que Deus sempre agirá em seres imperfeitos, e mesmo que estes estejam sob a jurisdição de uma instituição tão imperfeita quanto eles, mas saibam que Deus age não por estas autoridades, mas pela razão do sentimento que clama nos homens e mulheres por amor, verdade e justiça, em nome de um Ser Superior que eles crêem pela revelação de Jesus Cristo seu filho, que realizou salvação pela justiça em nome do amor e agora deixou seu Espírito habitando nos nossos sem limites territoriais, raciais ou culturais; basta clamar por Ele e Ele se manifestará.

Diego Marcell – 02/08/10

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